Rede de Viação Cearense

Por: Ferreoclube   Dia: 30 de janeiro de 2021

Fundada em 1915, a RVC – Rede de Viação Cearense foi uma companhia ferroviária estatal que incorporou a Estrada de Ferro Baturité e a Estrada de Ferro do Sobral com o objetivo de integrar e expandir a malha ferroviária do Ceará e integrá-la ao restante da rede viária do Brasil. O surgimento das ferrovias nesse Estado remonta aos anos 1870, quando o Governo Provincial criou uma concessão para a construção de uma estrada de ferro que ligasse a capital Fortaleza ao interior. Para a construção da linha, foi organizada por um grupo de empresários e políticos locais, com destaque para o senador Thomaz Pompeu de Souza, a Companhia Cearense da Via Férrea de Baturité, cujas obras tiveram início no dia 20 de janeiro de 1872.

 

O primeiro trecho de sete quilômetros (Fortaleza – Arronches) foi inaugurado no dia 30 de novembro de 1873, e em novembro de 1875 os trilhos já chegavam a Pacatuba, no quilômetro 33,6, servindo às estações de Mondubim, Maracanaú e Monguba ao longo do percurso; e de Maracanaú foi aberto um ramal para Maranguape, com aproximadamente sete quilômetros de extensão. Devido às graves secas que assolaram o Nordeste entre 1877 e 1879, a Companhia enfrentou grandes dificuldades financeiras, e foi necessária a intervenção do Governo Imperial para prosseguir as obras – a ferrovia só chegaria a Baturité (quilômetro 102,2) no dia 2 de fevereiro de 1882, passando pelas estações de Guaiúba, Baú, Água Verde e Canafístula; e estender a linha para o porto de Fortaleza por meio do ramal da Alfândega, para facilitar a importação e importação de mercadorias da estrada de ferro. Com o objetivo de desenvolver as regiões afetadas pelas secas, o Governo Imperial autorizou em 1883 os estudos para o prolongamento da E.F. Baturité rumo ao sul da província, e o projeto apresentado pelo engenheiro Ernesto Antonio Lassance Cunha contemplava a ligação de Baturité a Quixadá, com cerca de 86 quilômetros de extensão. As obras desse trecho foram concluídas em 1891, e pouco tempo depois de aberta essa extensão, os trilhos chegaram a Quixeramobim em 1894.

 

Em 1898 o Governo Federal arrendou a E.F. Baturité à companhia Novis & Porto, que a operou até 1909, quando transferiu a concessão à empresa britânica The South American Railway Construction Company Limited, à qual foi incorporada a Estrada de Ferro Sobral, formando a Rede de Viação Cearense. A E.F. Sobral, por sua vez, havia sido criada em 1878 com o objetivo de ligar as cidades de Camocim e Cratéus, em um percurso de 336,5 quilômetros, passando por Sobral e Ipu. Suas obras tiveram início em Camocim no dia 26 de março de 1879 e o primeiro trecho inaugurado no dia 15 de janeiro de 1881, ligando o porto de Camocim à cidade de Granja, em uma extensão de 24,50 quilômetros; o segundo trecho de 104 quilômetros de Granja a Sobral iniciou as operações no dia 31 de dezembro de 1882, e em 10 de outubro de 1894 a ferrovia chega a Ipu, no quilômetro 322,1. As obras de prolongamento da E.F. Sobral para o município de Cratéus tiveram início em 1909 (ano em que a ferrovia foi incorporada à RVC), e coube à concessionária a execução das obras até 1915, quando por complicações financeiras decorrentes da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), entregou a RVC ao Governo Federal.

 

As primeiras medidas da nova companhia estatal foram o prolongamento das obras da linha pertencente à E.F. Sobral para Cratéus (concluída em janeiro de 1925) e a extensão da linha de Fortaleza a Sobral (inaugurada em 1950), formando assim uma malha formada por duas linhas de penetração interligadas por uma transversal. A Companhia também participou de um amplo programa de construção de açudes, no qual seus serviços foram amplamente utilizados no transporte de materiais para as obras, e a partir de 6 de abril de 1920 passou a ser administrada pela IFOCS – Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas, que abriu diversos ramais para a construção de açudes, dentre os quais pode-se destacar o ramal de Patu (1921), os ramais de Orós e Poço dos Paus – posteriormente renomado Cariús – (1922) e o ramal da Paraíba (1923), no qual integrava-se com a malha da Great Western of Brazil Railway (e também com a E.F. Mossoró – Souza a partir de 1933). Durante o período das secas, a empresa reteve consideravelmente a mão de obra local na construção das linhas e açudes. A IFOCS administrou a RVC até o dia 05 de abril de 1924, quando a companhia ferroviária retornou à jurisdição do Ministério da Viação. Ainda, foram abertos em 1926 os ramais de Quixeramobim e Cajazeiras, e o Ramal de Barbalha, em 1950; e as linhas principais de Baturité e Sobral alcançaram a máxima extensão em 1926 e 1932, respectivamente, de forma que a RVC contava com quase 1.600 quilômetros de linhas em sua máxima extensão, com conexões aos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Piauí.

 

A substituição do parque de tração da companhia de máquinas a vapor por modelos a diesel teve início em 1949, quando o Governo Federal adquiriu trinta locomotivas 66T da Baldwin-Whitcomb (numeradas ), das quais quinze foram encaminhadas para a RVC e quinze para a Viação Férrea Federal Leste Brasileiro, a primeira companhia ferroviária brasileira a utilizar máquinas a diesel em seu parque de tração – embora não tenha implementado a dieselização de forma mais ampla até a encampação pela RFFSA em 1957. Posteriormente, foram adquiridas mais vinte e nove locomotivas ALCO e GE no final da década de 1950 e começo dos anos 1960.

 

Com o passar do tempo, entretanto, a carência de investimentos e reformas adequadas para a ampliação e melhoria dos serviços, a qualidade do transporte e capacidade de atender às crescentes demandas decorrentes do crescimento da economia cearense no Século XX foi deteriororando-se lentamente de forma que nos seus últimos anos de operações, ocorre na manhã do dia 17 de dezembro de 1951 o pior acidente da história da Companhia, quando um trem de passageiros descarrilou no quilômetro 322, próximo à estação Piquet Carneiro. O desastre decorrente do excesso de velocidade que acarretou mais de uma centena de mortos e dezenas de mutilados logo estampou as manchetes dos principais jornais locais: “O trabalho heróico para salvar a vida dos que ainda a retinham no corpo dilacerado pelo espetacular descarrilamento foi inegavelmente o desenvolvido por médicos e enfermeiros em Piquet Carneiro, onde não havia recursos terapêuticos nem material cirúrgico para atender aos sinistrados. Olhos foram arrancados a mão livre e até serrotes comuns de carpinteiro funcionaram nas amputações. (…) Dezenas de feridos, alguns em estado grave, em conseqüência do maior desastre ferroviário do estado. Os carros de passageiros ficaram adernados e engavetados. O trem vinha de Crato e havia pernoitado em Iguatu, de onde saíra às 5 horas de hoje” (O Povo, edições de 17 e 18.12.1951 – cessão: Osmar Lucena Filho, 2010).

 

A Rede de Viação Cearense foi incorporada à RFFSA em 1957 e teve seu fim em 1975, quando foi definitivamente extinta pela estatal, e sua malha nomeada como Superintendência Regional nº1, com sede em Recife – PE, alterada em 1975 para Superintendência Regional nº11, com sede em Fortaleza – CE. Nas décadas de 1970 e 1980 foram suprimidos diversos ramais considerados antieconômicos e encerrados os serviços de passageiros, de forma que quando a RFFSA foi privatizada na segunda metade dos anos 1990 já não havia mais trens de passageiros, exceto nos subúrbios. Em 1998 a malha foi assumida pela Companhia Ferroviária do Nordeste (que alterou sua razão social para Transnordestina Logística S.A. em 2008), empresa pertencente ao grupo CSN que transporta mercadorias nas linhas remanescentes da vasta malha ferroviária que a RFFSA outrora possuiu no Nordeste.

 

Mapa da RVC de 1924, mostrando suas linhas existentes, integrações e linhas planejadas

Trem da RVC no ramal de Camocim. Sem data

Locomotiva Baldwin – Whitcomb 66T em Camocim, nos anos 1950

Locomotivas da RVC na estação de Cedro, em 1957. Via IBGE

Locomotiva nº106 da E.F. Baturité em preservação estática no município homônimo, em agosto de 2011. A máquina foi colocada em preservação em frente à estação da cidade no dia 02/02/1982, em comemoração ao centenário da estação de Baturité

Mapa da Transnordestina Logística de 2011, mostrando as linhas ainda utilizadas da antiga RVC

Estação de Sucesso, da linha pertencente à finada E.F. Sobral, em janeiro de 2016. Acervo de Antonio Camocim

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