Estação Papari

Por: Ferreoclube   Dia: 24 de agosto de 2018

Com 42 anos de atuação, a RFFSA foi a maior companhia ferroviária brasileira de todos os tempos, reunindo 18 ferrovias estatais sob uma única Administração com o objetivo de modernizar a rede ferroviária do País, na época formada por diversas companhias desarticuladas entre si e muitas em má situação financeira e operacional. Apesar de ter falhado consideravelmente em seu objetivo principal, a estatal possui o maior patrimônio ferroviário do País e sua história é de importância crucial para o entendimento da situação atual das estradas de ferro no Brasil.

 

Com o colapso da Rede iniciado em 1985 e terminado em 1998 e o repasse de suas linhas à iniciativa privada, seus ativos tomaram os mais variados destinos, desde o abandono total à preservação turística das mais diversas formas. Caso curioso é o da estação ferroviária de Papary, no Rio Grande do Norte: Inaugurada em 1881 pela Natal and Nova Cruz Railway, foi repassada à Great Western of Brazil Railway vinte anos depois, quando da expansão desta empresa pelo Nordeste. A ascensão da GWBR como uma das principais companhias ferroviárias do País deve-se ao programa de reestruturação da rede ferroviária promovido pelo Governo Federal para conter a hemorragia no Tesouro decorrente dos subsídios às diversas ferrovias deficitárias ou pouco lucrativas que beneficiaram-se da Subvenção Quilométrica de 1873.

 

Entretanto, a conhecida “Gretoeste” ainda apresentava diversas dificuldades em operar a rede esparsa e desarticulada de ferrovias que assumiu, e em agosto de 1939 transferiu a problemática linha Natal-Nova Cruz à Companhia estadual E.F. Central do Rio Grande do Norte. Durante a Segunda Guerra Mundial, que teve início no mês seguinte, a ferrovia receberia grandes investimentos em função do aumento explosivo da demanda entre Recife e Natal. Devido às pequenas dimensões do Porto de Natal, os estadunidenses utilizavam o porto de Suape e o transporte dos equipamentos por ferrovia para as bases aérea e naval de onde as tropas partiam para o patrulhamento e defesa do Atlântico Sul e norte da África.

 

Em 1950, a União assumiu os ativos da GWBR por meio da criação da Rede Ferroviária do Nordeste e sete anos depois esta Companhia é incorporada à RFFSA. Sem ter realizado grandes reformas na rede ferroviária nordestina, a empresa terminou por suprimir os trens de passageiros na linha Natal-nova Cruz em 1977 e as estações quatro anos depois. Já o transporte de carga prosseguiu até 1997, quando a Companhia Ferroviária do Nordeste assumiu a concessão, e encerrou as operações por considerar o trecho inservível. Ao passo que a CBTU manteve o trecho Natal-Parnamirim ativo para serviços de subúrbio, todo o resto da linha foi abandonado e desfigurado. Sem preservação, muitas estações como Baldum e São José do Mipibu tornaram-se apenas ruínas; e os trilhos foram cobertos pelo mato, terra e asfalto nas cidades outrora atendidas pela estrada de ferro.

 

Entretanto, um pequeno trecho dessa centenária ferrovia permaneceu preservado de uma forma bastante peculiar: a antiga estação de Papari foi transformada em restaurante e logo tornou-se um dos principais pontos turísticos do Rio Grande do Norte. O Marina’s Camarões destaca-se pela variedade e qualidade de seus pratos à base de camarão, alimento comum na cidade conhecida como “terra do camarão”.

 

O nome escolhido é uma homenagem à filha dos proprietários, que trabalha em corretagem de imóveis. Ainda, há um prato que leva seu nome (Camarão à Marina), que é camarão guarnecido com batata palha, arroz à grega e purê de abóbora. Além de pratos de camarão, o cardápio possui peixes, moquecas, galinhas caipiras criadas em um terreno próximo, carnes de pato, coelho e até cabrito. Os proprietários Fernando e Graça Bezerril mantêm o prédio tombado com cuidado, aproveitando todo o espaço da gare para o restaurante e utilizam a plataforma e trilhos aposentados para montar as mesas onde são atendidos os clientes. Com diversas fotos de celebridades que já visitaram o local nas paredes, vasos de plantas, cachaças na parede e mesas coloridas por seu interior, a estação desativada permanece com a vida dos áureos tempos das ferrovias no Nordeste.

 

 

Estação Papari, em dezembro de 2017

 

Trilhos desativados da RFFSA sobre os quais são eventualmente montadas as mesas do restaurante em dias de maior movimentação

 

Interior da estação, em dezembro de 2017

 

Mário Lanza na estação, em dezembro de 2017

 

Lateral da construção, onde pode-se ler o nome da estação

 

Conforme citado no website Estações Ferroviárias, a estação de Papari foi inaugurada com a linha em 1881, segundo historiadores da região. Esta data não aparece, no entanto, nas relações de estações. A cidade passou a se chamar Nisia Floresta em 1948, mas a estação, pelo menos nos guias, jamais teve o nome alterado para o da cidade – embora o Guia Geral das Estradas de Ferro do Brasil, de 1960, utilize o nome de Nisia Floresta para a estação. Mas afinal, quem foi Nísia Floresta? Ela é considerada “a mais notável mulher que a História do Rio Grande do Norte registra” e nasceu em Papari. Escritora, seu nome real era Dionísia Gonçalves Pinto (1810-1885), mas ficou conhecida com o seu pseudônimo, Nísia Floresta Brasileira Augusta.

 

Sem tráfego de trens de passageiros desde meados de 1977 e cargueiros desde 1997, quando a Companhia Ferroviária do Nordeste assumiu a concessão da linha, a estação desativada desde 1981 sobrevive como um belo restaurante no interior do Rio Grande do Norte

 

Ambiente arborizado em frente à estação que há anos não vê tráfego

Trilhos sem tráfego, por Mário Lanza

Tarde tranquila na estação, em dezembro de 2017

 

 

Referências

 

EDMUNDSON, William. A Gretoeste: história da rede ferroviária Great Western of Brazil. Editora Ideia, 2016.

ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS. Disponível em <http://www.estacoesferroviarias.com.br>.

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