Assalto ao Trem Pagador

Por: Ferreoclube   Dia: 20 de Abril de 2018

A manhã do dia 14 de junho de 1960 seria mais uma na rotina da centenária Estrada de Ferro Central do Brazil. Logo às 8h25 da manhã, partiria Serra acima da estação de Japeri um pequeno trem puxado pela locomotiva a vapor nº1147 conduzida pelo maquinista Venceslau José de Castro e o foguista Pedro José da Silva. Também viajavam a bordo os funcionários do departamento de Contabilidade Círio Antônio da Silva, Sebastião Alvarenga Vale e Leonel Esteves; o guarda linha Eusébio Galvão; e o operário Francelino Correia. A composição, entretanto, não subiria pela Linha do Centro, por onde circulavam as pesadas composições de minério rumo a Volta Redonda, os expressos Santa Cruz e Vera Cruz e os diversos trens mistos que atendiam ao Ramal de São Paulo e o Sul de Minas; mas pelo traçado de bitola métrica construído pela finada E.F. Melhoramentos.

 

Esta linha férrea inaugurada no ano de 1892 era uma fantástica obra da engenharia, que desafiava a Serra do Mar com um traçado que exigia bem menos esforço dos homens e máquinas que a Linha do Centro, repleta de rampas e túneis no percurso penoso rumo a Barra do Piraí, onde separava-se a via no Ramal de São Paulo, que percorria todo o Vale do Paraíba, ao passo que a Linha do Centro, que seguia rumo às Minas Gerais. Em seu belo percurso podia-se deslumbrar toda a opulência da Serra do Mar, ora nos contornos de seus morros, ora nos vales pelos quais corriam os rios, de forma ininterrupta ao longo da via sem túneis. Em 1903 a Central encampou a ferrovia e para mostrar superioridade, batizou-a como Linha Auxiliar. Com diversas reformas e expansões, passou a constituir uma importante rede ferroviária paralela à Linha do Centro que estendia-se pelo interior do Rio de Janeiro e Sul de Minas, por onde circulavam mercadorias e passageiros com uma capilaridade que a estatal dificilmente conseguiria ramificando sua linha principal na custosa e exigente bitola Larga (1,60m). E era por sua utilização como ferrovia paralela por onde circulavam os trens menores que reforçavam o tráfego na Linha do Centro, fazia essa ferrovia jus ao nome Linha Auxiliar.

 

E era por essa linha que seguiria a composição mencionada, de prefixo SAP-21, com uma pequena mas valiosa carga em seu único vagão: os salários de mais de mil funcionários da estatal que trabalhavam na Linha Auxiliar e em parte da Linha do Centro, no valor de Cr$27,59 milhões. Apesar de sua pontualidade de sempre, o trem viajava com uma sobrecarga nada usual. Havia pagamento de dois meses de abono, decretado dias antes pela Administração, de forma que o trem carregava três vezes mais dinheiro que o normal; e durante a viagem, os encarregados do pagamento separavam tranquilamente o dinheiro em diversas caixas e latas, visto que o cofre não comportava tal quantia.

 

Cinco minutos depois de deixar a estação Japeri, ao passar em um trecho conhecido como “curva da morte” no quilômetro 71 (a cerca de 4.300m da estação Botaes), foram ouvidas algumas explosões e o forte ruído das rodas saindo dos trilhos soltos da via. Tão logo o Trem Pagador parou de mover-se, os ferroviários ouviram as ordens: “Isto é um assalto! Desçam já do trem! Se reagirem, serão mortos sem piedade!” Seis homens mascarados cercaram o trem e renderam os ferroviários, mas não antes de um breve tiroteio no qual Eusébio Galvão levou um tiro na boca, Leonel Esteves alvejado na coxa, Círio Antônio da Silva ferido com diversas coronhadas, Sebastião Alvarenga Vale igualmente ferido, e Francelino Correia (por azar, o único que não trabalhava na Central) morto com um tiro na testa.

 

Enquanto o trem era pilhado, o auxiliar do líder da quadrilha levou os funcionários da CB para a beira do barranco, ameaçando executar a todos e explodir a composição com bananas de dinamite. Entretanto, o chefe disse um “deixa pra lá” e o bando fugiu carregando o dinheiro. No dia seguinte, o Brasil inteiro foi inundado com inúmeras notícias sobre o audacioso crime e teria início uma série de investigações que durariam mais de um ano. Mesmo assim, parte do crime jamais foi solucionada, assim como 17 dos 27,59 milhões de cruzeiros que nunca foram encontrados.

 

Imagens:

 

Locomotiva a vapor nº1147 da Central conduzindo a composição SAP21, no dia 14 de junho de 1960

 

Estação de Japeri na época da gravação do filme Assalto ao Trem Pagador, no ano de 1962. Destaque para o trem SAP21 partindo da plataforma da esquerda, a locomotiva Escandalosa estacionada ao centro e no canto direito as recém chegadas locomotivas SD18. Acervo de Carlos Alberto Ramos

 

Corpo do operário Francelino no Trem Pagador. Foto extraída do filme Assalto ao Trem Pagador

 

“Curva da morte” na qual o Trem Pagador da EFCB foi assaltado

 

Trem Pagador SAP21 na Curva da morte após o assalto

 

Vagão utilizado no trem SAP 21 reconstruído pela Central para a filmagem de Assalto ao Trem Pagador

 

Cartaz de Assalto ao Trem Pagador, de 1962

 

Cartaz do filme Assalto ao Trem Pagador, de 1962

 

 

Referências

ADOROCINEMA. Disponível em <http://www.adorocinema.com>.

DÉCADA DE 50. Disponível em <https://decadade50.blogspot.com.br>.

TREM DA SERRA DO RIO DE JANEIRO. Disponível em <http://tremdaserradoriodejaneiro.blogspot.com.br>.

Posts Relacionados

E.F. Central do Brasil

Postado em: 4 de Maio de 2018

Continuar Lendo

Assalto ao Trem Pagador

Postado em: 20 de Abril de 2018

Continuar Lendo

Locomotivas Lobas

Postado em: 6 de Abril de 2018

Continuar Lendo

Linha Circular da EFCB

Postado em: 23 de Março de 2018

Continuar Lendo