Automotrizes RDC

Por: Ferreoclube   Dia: 12 de janeiro de 2018

As automotrizes Rail Diesel Car foram desenvolvidas pela Budd Company em 1949 para o transporte de passageiros em áreas rurais de baixa densidade de tráfego e serviços Commuter, uma vez que eram mais baratas de operar que as composições de locomotivas diesel e carros de passageiros. Equipadas com dois motores GM 6 cilindros de 275HP ligados aos truques por uma transmissão hidráulica Allison e um eixo cardã de forma independente, possuem a capacidade de trafegar com apenas um dos motores ligados para economia de combustível e devido à falta de espaço, possuem os radiadores a água instalados em uma “corcova” característica no teto do carro. Entre 1949 e 1962 foram produzidas 398 unidades, destinadas a trinta e duas companhias ferroviárias na Arábia Saudita (4 unidades para a Arabian American Oil Company), Austrália (3 unidades compradas pela Commonwealth Railways), Brasil (29 unidades adquiridas pela RFFSA), Canadá (25 unidades adquiridas pela Canadian National e 53 pela Canadian Pacific), Cuba (16 unidades encomendadas pela Ferrocariles Consolidados de Cuba e 10 pela Ferrocariles Occidentales de Cuba) e Estados Unidos (256 unidades no total, das quais 109 foram adquiridas pela Boston and Maine Railroad, 40 pela New York, New Haven and Hartford Railroad, 20 pela New York Central, 16 pela Baltimor & Ohio Railroad e 71 por outras Companhias).

 

A primeira aquisição desses singulares veículos por uma ferrovia brasileira se deu em 1958 pela Central do Brasil, já incorporada à Rede Ferroviária Federal S.A., com o objetivo de incrementar os serviços de passageiros que, à exceção dos luxuosos trens Santa Cruz e Vera Cruz, eram primordialmente constituídos por carros de madeira que aos 40 anos de uso, tinham pouco conforto a oferecer para os padrões da época – principalmente à crescente concorrência do modal rodoviário. A escolha pelas automotrizes RDC deu-se pela simplicidade dos modelos, capacidade de operar em formação dupla e com apenas um motor ligado (essencial para a economia de combustível) e simplicidade de manutenção essencial p/ corte de custos (a troca de motor nas oficinas demorava apenas 1h30). Foram adquiridas quatro unidades RDC1 (com capacidade de 88 passageiros) e duas RDC2 (com capacidade para 68 passageiros e um compartimento de carga de 5,18 metros de comprimento no corpo da mesma) de bitola Larga (1,60m), que receberam as identificações ED11 a ED14 e ED51 e ED52, respectivamente.

 

Inicialmente alocadas na rota Rio de Janeiro – Juiz de Fora, entraram em serviço em abril do mesmo ano, na qual mostraram-se capazes de cobrir o percurso de 270 quilômetros em 4h40. Embora também tenham sido utilizadas em trens para Santos Dumont e Barbacena, seu uso na Linha do Centro logo tornou-se mais raro na medida que foram prioritariamente alocadas a partir de 1960 no Ramal de São Paulo, tendo em vista a maior demanda na rota Rio de Janeiro – São Paulo e os melhores resultados operacionais dos veículos no Ramal, onde podiam atingir facilmente a velocidade de 100Km/h em diversos trechos. A alta popularidade do serviço logo fez com que a RFFSA adquirisse em 1962 mais quatro automotrizes RDC1 de bitola Larga para a Central, das quais as duas primeiras (numeradas M504 e M505) eram idênticas às anteriores, ao passo que as outras duas (numeradas M552 e M553) possuíam capacidade para 80 passageiros e uma pequena cozinha a bordo. Apesar dos problemas das novas unidades com os equipamentos de ar condicionado que só foram resolvidos em 1968 quando a RFFSA ameaçou a fabricante com ações judiciais, essas automotrizes foram altamente competitivas por anos frente à precariedade dos serviços de ônibus da Rodovia Presidente Dutra, que apesar do mesmo tempo de viagem, demoraram anos para oferecer os mesmos padrões de conforto.

 

Ainda, foram encomendadas outras dezenove unidades de bitola métrica, para a qual a Budd Company teve de alterar o projeto adotando diversas características do novo modelo Pioneer III. Denominadas RDC-A (Adaptadas), essas automotrizes possuem um design mais leve, com a remoção dos radiadores do teto do carro, máscara reta, janelas ovais e mais longas, menor distância entre engates e os notórios truques com freio a disco aparente. Destas, foram produzidas onze unidades Coach (numeradas M600 a M610) com capacidade para 56 passageiros; e oito unidades Coach Buffet (numeradas M700 a M707) com capacidade para 48 passageiros e um buffet no interior. Para a RVPSC foram encaminhadas as unidades M600, M601, M602, M706 e M707; para a Noroeste as unidades M603, M604, M605, M704 e M705; para a Leopoldina as unidades M606, M607, M608, M700 e M701; e para a Rede Mineira de Viação as unidades M609, M610, M702 e M703.

 
Entretanto, nessas diversas ferrovias que constituíam a heterogênea malha da estatal RFFSA, as automotrizes tiveram os mais diversos destinos. Em função da precariedade de seu material rodante, a Rede Mineira de Viação preferiu trocar os luxuosos veículos por carros de aço – carbono com a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro por volta de 1968, recebendo em troca quinze carros de passageiros, sendo dois de Primeira Classe (B110 e B111), dois Buffets (B124 e B125), quatro de Segunda Classe (C114 a C117), quatro Dormitórios (D106 a D109), um Restaurante (R105) e dois Bagageiros – Correios (E103 e E104). Das unidades da Noroeste, Leopoldina e RMV, foram baixadas as automotrizes M604, M606 e M704; ao passo que as demais foram transferidas para a Fepasa e posteriormente aposentadas, ou transferidas para Fortaleza-CE e Tubarão-SC. A ferrovia que melhor as empregou foi a RVPSC, onde foram utilizadas (M600, M601, M602 e M706) no famoso trem turístico Curitiba – Paranaguá da Serra do Mar Paranaense, ao passo que as unidades M701 e M705 encontram-se no trem turístico das Montanhas Capixabas operado pela Serra Verde Express no Espírito Santo.

 

Imagens:

Automotriz RDC utilizada pela MRS como carro administrativo, em janeiro de 2007. Foto de Thomas Corrêa

 

Automotriz RDC1 da finada Mogiana em Carlos Gomes, por William Martins

 

Automotriz RDC de bitola Larga da Central, década de 1950. Acervo de Paulo Roberto Filomeno

 

Automotriz de bitola métrica na estação de Bauru. Acervo de Paulo Roberto Filomeno

 

Automotrizes RDC da Central. Sem data. Autor desconhecido

 

Rail Diesel Car da Mogiana. Sem data. Autor desconhecido

 

Automotrizes RDC da RFFSA alocadas na Superintendência Regional nº5 em Corupá, na Linha de São Francisco. Fotografia de Jorge Ciawlowski, datada de 1986

 

Tabela das numerações das automotrizes RDC após a implementação do Código SIGO em 1983. Via Revista Ferroviária

 

Automotrizes ED11 e M553 na Ferrovia do Aço, em 01/07/1989. Fotografia de João Bosco Setti

 

Trem de passageiros tracionado por duas locomotivas GT22CUM1, 18 carros e 3 automotrizes RDC na Serra do Mar. Foto de 19/07/2008, por Daniel K. Trevisan

 

Automotriz nº1 da CPTM (ex-EFCB) na estação da Luz, em 2010. Foto de Eduardo Ganança

 

Automotriz Budd RDC MH7000 partindo de Curitiba rumo a Paranaguá. Fotografia de 31/05/2010, por Adam Auxier

 

Unidade MH7001 na estação de Curitiba em 25 de janeiro de 2013, por Adam Auxier

 

Automotriz RDC no pátio de Mairink, junto com uma locomotiva a vapor e carros de madeira, em meio aos trens de carga da ALL. Foto de Lucas MR, de 13/07/2014

 

Automotrizes MH7000 nas oficinas de Curitiba em 17/11/2014, por Jorge Nicolo

 

Automotriz RDC da Serra Verde Express na Serra do Mar percorrendo a rota Curitiba – Paranaguá. Foto institucional

 

Automotrizes RDC1 da New York, New Haven & Hartford Railroad em Providence, Rhode Island. Fotografia de Edward J. Ozog, datada de maio de 1956

 

Automotrizes RDC3 fotografadas em Oscawana, New York no dia 14 de abril de 1966 por George W. Hamlin

 

Automotriz NH28 da New Haven em Franklin, Massachusetts. Fotografia tirada por Marty Bernard no dia 14 de setembro de 1968

 

RDC nº10 da Southern Pacific fotografada por Marty Bernard em Willits, California, no dia 31 de janeiro de 1971

 

Budd RDC da New York Central em Boston, Massachusetts. Fotografia tirada por Tom Sink em junho de 1977

 

Automotrizes RDC modificadas pela New Haven em 1957 para um projeto experimental para a rota Boston – New York que terminou por não dar certo e ficaram alocadas em serviços Commuter em Boston até serem repassadas à Amtrak nos anos 1970. Fotografia tirada em 14/07/1979 por Tom Nelligan

 

Automotriz nº198 da Via Rail na estação de Courtenay, British Columbia. Fotografia de 20/09/1980, por Tom Nelligan

 

Automotrizes RDC4 da Via Rail em Sudbury, Ontario. Foto de 22/08/2015, por Steve Arnot

 

Automotrizes RDC2 nº6105 e 37 da Via Rail em Montreal, Quebec. Clique de 08/09/2015, por Michael Berry

 

Automotriz nº28 da Canadian National fotografada por Nicolas Houde no centro de Montreal, no dia 11 de setembro de 2016.

 

 

Fontes: Almanaque da RFFSA (http://almanaquedarffsa.blogspot.com.br); Centro – Oeste (http://vfco.brazilia.jor.br); Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (http://www.cptm.sp.gov.br); Ferreoclube (http://www.ferreoclube.com.br); Memória do Trem (http://www.trem.org.br); Portal do Trem (http://www.portaldotrem.com.br); Railpictures (http://www.railpictures.net); Revista Ferroviária (http://www.revistaferroviaria.com.br); São Paulo Trem Jeito (http://saopaulotremjeito.blogspot.com.br).

Posts Relacionados

Trem Sula Miranda

Postado em: 12 de outubro de 2018

Continuar Lendo

Estação Papari

Postado em: 24 de agosto de 2018

Continuar Lendo

Estação Santos – Imigrantes

Postado em: 27 de julho de 2018

Continuar Lendo

Automação em Ferreomodelismo

Postado em: 13 de julho de 2018

Continuar Lendo