Homem e Máquina

Por: Ferreoclube   Dia: 1 de setembro de 2017

A relação entre o Homem e a Máquina sempre oscilou entre o fascínio e o medo. Passando pelos primeiros instrumentos e sistemas de alavancas e polias para a ampliação da força, moinhos de vento e moendas e arados de tração animal até os motores a vapor da primeira Revolução Industrial aos mais terríveis instrumentos para matar utilizados nas guerras como os tanques e metralhadoras. Uma criatura com movimentos próprios, mas sem a alma que caracteriza sua humanidade, como o monstro criado por Victor Frankenstein que, ao encarar seu criador, lhe pergunta: “Eu tenho uma alma? Ou você se esqueceu dessa parte?” no romance de Mary Shelley que alerta para o castigo de Prometeu, que deu aos homens o poder divino; dilema ético mais atual do que nunca em campos como clonagem, aborto, etc.(que não nos vêm ao caso aqui). Monstruosos seres acéfalos sem controle, que escravizam o Homem, como diziam os românticos nos primórdios da Revolução industrial.

 

Desde os primórdios da evolução humana fez-se necessário o desenvolvimento de diversas ferramentar enfrentar a natureza, visto que não possuímos muitas vantagens biológicas que não a capacidade de pensar racionalmente. A Máquina, como a maior criação do Homem, acompanha-o desde tempos imemoriais. Contar a sua história, portanto, é mais que contar a história do progresso tecnológico da humanidade: é contar a história do Homem.

 

Muito do que o Homem é hoje, tanto como indivíduo e como espécie, é constantemente moldado por nossas próprias criações. Para o horror dos românticos, que buscavam fugir do caos da cidade e da vida, pode-se dizer que o estudo da história desde a Revolução Industrial consiste também em uma “antropologia da máquina”. Cada vez menos temos a noção de onde termina o Homem e começa a Máquina, em nossa angústia eterna de perdermos nossa humanidade submetendo-nos à automatização e o ritmo de nossas próprias criações.

 

Desde a simpática máquina de costura, a mais simbólica da Revolução Industrial até os observatórios que nos permitem enxergar nossa pequenez no meio do Universo, talvez seja a locomotiva a mais icônica da modernidade erigida pela Revolução Industrial. Em meio ao caos da época, o trem a vapor era uma máquina singularmente sedutora; simbolizava de forma harmônica o convívio entre homem e máquina.

 

O trem seduziu pintores, como Monet, Cézanne e Delvaux; foi retratado pela Guild of Railway Artists, organização britânica com mais de 150 membros dedicada a retratar temas relacionados à ferrovia; compositores como Adoniran Barbosa e Raul Seixa; e escritores como Tolstoi, desde que veio para transformar o mundo no Século XIX. De fato, são máquinas notórias. Não há como não notar sua imponência pelo tamanho, e sua potência e força, contidos em seu interior. Principalmente por tratar-se de um transporte terrestre, ao contrário dos navios e aviões que normalmente vemos “de longe” na maioria do tempo.

 

A ferrovia impôs às cidades e vilas o seu ritmo, a contagem do tempo e a comunicação logo passaram a ser medidos pela chegada e partida dos trens. Dos vilarejos do interior da Inglaterra aos milhões de pessoas nas grandes cidades se deslocando pelos horários do metrô, é a forma mais longeva e sutil da dominação da Máquina, que se mantém até hoje, através dos inúmeros ciclos de desenvolvimento da chamada “destruição criativa”.

 

O capitalismo moderno surgiu com a ferrovia. As companhias ferroviárias foram as primeiras corporações do mundo; as primeiras empresas privadas a exercer grande influência sobre milhares de pessoas em grandes áreas, a ditar o ritmo de vida em províncias e países inteiros de acordo com suas grades de horários. Como diz a lenda do interior paulista, ajustava-se os relógios pela chegada dos trens da Companhia Paulista, dada sua pontualidade e a importância da companhia ferroviária para o desenvolvimento do interior do Estado.

 

Uma última digressão: Curiosamente, na Língua Portuguesa, o termo maquinista, destinado àqueles que conduzem os trens, significa literalmente “o operador da máquina”. Talvez seja inconscientemente essa a maior prova de que a ferrovia seja a mais simbólica máquina da Revolução Industrial, e talvez, da história do Homem.

 

Todas essas reflexões têm como simples objetivo destacar a importância de todos os ferroviários, autores e ferreomodelistas para a preservação da História ferroviária no Brasil; consciente ou aleatoriamente, desde aqueles que dedicam-se de corpo e alma à ferrovia, pesquisando, escrevendo, fotografando e buscando trazer à luz estas memórias que há anos encontram-se esquecidas, para que possamos compreender o futuro; como aqueles que simplesmente admiram essas fantásticas máquinas que exercem uma atração tão intensa por onde passam, compram réplicas e lêem a respeito delas. A paixão pela máquina justifica a atenção.

 

Inauguração da Liverpool&Manchester Railway, no dia 15/09/1830

Inauguração da Liverpool&Manchester Railway, no dia 15/09/1830

 

Fontes: Ferreoclube(Http://www.ferreoclube.com.br); The British Museum(Http://www.britishmuseum.org); National Railway Museum(Http://www.nrm.org.uk).

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