Ferrovias Guianenses

Por: Ferreoclube   Dia: 31 de março de 2017

Apesar da França ser mundialmente conhecida pelo desenvolvimento de seu setor ferroviário, seu departamento ultramarino mal conhece o transporte sobre trilhos, assim como os demais países do Planalto da Guiana (Guiana e Suriname) e o extremo norte do Brasil, que possui apenas uma pequena ferrovia: a E.F. Amapá, a única brasileira acima do Equador e totalmente isolada do restante da malha ferroviária do País. Embora pertencente à América Espanhola, conforme definido pelos tratados de Tordesilhas (07/06/1494), a região na prática foi ocupada por exploradores franceses, que abriram um centro comercial em Sinnamary em 1624 e Cayenne em 1637. Pouco depois do domínio sobre o Brasil (1630 – 1654), o Reino de Holanda invade Cayenne em 1658 e ocupa a região até 1664, quando a França a retoma definitivamente e legitima sua ocupação pelo tratado de Breda (31/07/1667), e tem suas fronteiras com o Brasil definidas com a assinatura do Tratado de Utrecht (11/04/1713). Esse governo francês duraria até 1809, quando por ordem de D. João VI, a Guiana Francesa foi invadida e anexada ao Brasil até 1817, quando retornou ao controle francês. Colônia penal francesa de 1854 a 1947, a Guiana é desde então um departamento ultramarino francês com representação no Senado e Assembleia Nacional, cujos cidadãos participam das eleições francesas e como parte do território francês, é considerada parte da União Europeia e da Zona do Euro.

 

O início do desenvolvimento da pequena malha ferroviária guianense remonta à época da descoberta de ouro em Saint – Elie em 1873. A construção da primeira linha férrea deu-se em 1884 com o objetivo de substituir as mulas no transporte de ouro, cujas obras terminaram em 1886 com apenas 3,5 quilômetros concluídos, que foram posteriormente comprados pela Societé des Gisements de Saint – Elie, que concluiu 33,5 quilômetros de trilhos entre Saint – Elie e Gare Tigre em 1898. Essa Companhia, por sua vez, operou até 1919 quando foi à falência; e em 1923 a Societé Nouvelle de Saint – Elie assumiu a ferrovia e a pôs em funcionamento novamente em 1926. A empresa chegou a trazer uma pequena locomotiva a vapor de bitola Decauville para a ferrovia, embora não haja confirmações de que a máquina tenha sido efetivamente utilizada; até 1939 a tração utilizada na linha férrea era a animal (mulas), que foi substituída pela tração humana. De acordo com relatos locais, os vagonetes eram empurrados por oito equipes de quatro homens, que podiam empurrar até uma tonelada de peso bruto. Em 1956 essa nova companhia foi à falência, e a ferrovia foi utilizada ainda por algum tempo, e até um merceeiro apropriou-se de um vagão para convertê-lo em um pequeno veículo motorizado para o transporte de mercadorias. Por fim, essa estrada de ferro foi inutilizada em 1993 quando a construção da represa de Petit – Saut no rio Sinnamary colocou metade da extensão de seus trilhos debaixo d’água.

 
O mais próximo de uma rede ferroviária pública que a Guiana chegou a ter nos Séculos XIX e XX foi a ferrovia da prisão de Saint Laurent du Maroni, nas proximidades do rio Maroni, que constitui a fronteira com o Suriname. Fundado em 1859, esse campo prisional era administrado diretamente pelo governo de Paris e atuava como centro de distribuição de detentos para campos secundários. Entre 1890 e 1897, uma linha férrea de 16 quilômetros de extensão e bitola Decauville foi construída ligando Saint Laurent a Saint Jean ao longo do curso do rio Maroni; e posteriormente foi aberta outra linha de Saint Laurent para a serraria de Carvein em um percurso de 22 quilômetros e que atendia a diversos outros campos de trabalho forçado nas proximidades, por meio de ramais temporários e permanentes. De acordo com algumas fontes, essa linha foi construída com material utilizado na exibição universal de Paris de 1889, ao passo que (ao menos) três locomotivas do material rodante eram novas: Saint – Jean e Maroni, fabricadas em 1888 e de rodagem 0-4-0T; e a Tumuc – Humac, datada de 1892 e de rodagem 0-4+4-0T. Todavia, como essas três máquinas eram insuficientes para a demanda da ferrovia, era comum o uso de tração animal (búfalos) e humana; assim como o restante do material rodante consistia em vagonetes pequenos e simples, dos quais os mais sofisticados eram os administrativos dos trens que circulavam nos finais de semana. Essa rede também atendia ao Camp de la Relégation e outra prisão menor nas proximidades de Kourou, onde diz-se que há um trem abandonado na floresta que cobriu toda a linha férrea e instalações após a sua desativação. Ainda, o Camp Crique Anguille, utilizado para prisioneiros da Indochina (atuais Vietnã, Camboja e Laos), localizado na comuna de Montsinéry – Tonnegrande a 38 quilômetros ao sudoeste de Cayenne também contava com uma pequena linha Decauville que ligava o campo de prisioneiros a um pequeno ancoradouro no rio Tonnégrande.  

 

Por fim, o Centro Espacial de Kourou (em francês: Centre Spatial Guyanais) possui duas linhas férreas construídas em bitola Standard para a movimentação de suas instalações de lançamento de foguetes. Inaugurado em 1968 na comuna de Kourou e operado pela European Space Agency, o CSG foi construído na região por sua proximidade com o equador e mar aberto a leste, critérios essenciais para auxiliar os foguetes a entrar em órbita e que os componentes de seus estágios primários de lançamento e destroços de eventuais acidentes não caiam sobre outras instalações em terra. Com uma extensão total de 2.800 metros, suas linhas seguem paralelas com um espaçamento de cerca de 8 metros ao longo de todo o percurso, iniciando no Banc d’Essais des Etages à Poudre (unidade de testes de pulverizados), passando pelo Bâtiment d’Intégration Propulseurs (unidade de criogenia) e Bâtiment Stockage Etage (unidade de armazenamento) e, por fim, terminando na plataforma de lançamento. Os veículos utilizados nessa linha são duas plataformas de 180 toneladas e quatro truques duplos (totalizando dezesseis eixos) que circulam sobre os dois trilhos puxadas por um caminhão, cuja única função é o transporte dos foguetes para montagem e lançamento.

 

Imagens:

Pintura de Francis Lagrange ilustrando a construção de uma ferrovia nas florestas guinanenses

 

Outra ilustração de Francis Lagrange das obras de construção ferroviária na Guiana Francesa, exposta no Musée Départemental Alexandre Franconie, em Cayenne

 

Ruínas da oficina de Saint Laurent, por Rob Dickinson

 

Mesma oficina vista de outro ângulo, onde pode-se perceber o rápido crescimento da vegetação na construção abandonada

 

Ruínas de um terminal, onde provavelmente era realizada a baldeação das mercadorias entre a ferrovia e as embarcações

 

Restos mortais de uma locomotiva e dois vagonetes em Saint Jean, por Rob Dickinson

 

Pequeno vagonete (sem o estrado) preservado por particulares no Camp de la Transportation in St-Laurent

 

Trilhos abandonados em meio à floresta nas proximidades de Cayenne, por Rob Dickinson

 

Vagonetes esquecidos na floresta, por Rob Dickinson

 

Pequena locomotiva a vapor Decauville (provavelmente da Krauss ou O&K) próxima à usina hidrelétrica de Sinnamary em 2014, por Rob Dickinson

 

Mais restos de material ferroviário…

 

Curioso truque com engrenagem encontrado em meio à sucata. Teria sido de uma locomotiva a diesel?

 

Serralheria de Dégrad Corrèze próxima ao rio Orapu, onde pode-se observar os trilhos e vagonetes para o transporte de materiais

 

Vagonete carregado com estacas de madeira próximo à serralheria

 

Vagonetes carregados com madeira dentro da serralheria, por Rob Dickinson

 

Chassis de uma antiga locomotiva a vapor 0-4-0T no comusée municipal d’Approuage-Kaw em Régina, por Rob Dickinson

 

Trilhos submersos próximo à usina hidrelétrica de Sinnamary

 

Trilhos quase escondidos pela grama em frente a um dos portões da hidrelétrica, em 2014

 

Ilustração da linha férrea utilizada no CSG para o transporte de foguetes. Foto institucional

 

Trilhos próximos à área de acesso restrito do CSG

 

Maquete dos veículos utilizados para o transporte de foguetes

 

Caminhão utilizado pelo CSG para o transporte dos foguetes

 

 

Fontes: Ferreoclube (http://www.ferreoclube.com.br); International Steam (http://www.internationalsteam.co.uk).

 

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