NMBS/SNCB

Por: Ferreoclube   Dia: 3 de fevereiro de 2017

A primeira tentativa de construir uma estrada de ferro na Bélgica foi realizada pelo industrial anglo-belga John Cockerill, que tentou obter uma concessão do rei William I para construir uma linha que ligasse Bruxelas à Antuérpia em um percurso de cerca de 45 quilômetros. Entretanto, foi somente após a Revolução Belga de 1830 (25/08/1830 – 21/07/1831), na qual a Bélgica obteve sua independência dos Países Baixos, que a ideia da criação de ferrovias no país efetivamente tomaria forma e em menos de um mês depois da coroação do rei Leopoldo I (21/07/1831), foi lançado um amplo programa de estudos e investimentos para a criação de uma malha ferroviária com o objetivo de recuperar a economia devastada pela guerra. Ao contrário da intrincada malha ferroviária inglesa, que era construída por diversas empresas privadas, a primeira rede de ferrovias da Europa continental (cronologicamente, a primeira ferrovia francesa foi inaugurada em 1832, porém devido a diversas tensões políticas, esse país tardou a desenvolver ferrovias de importância econômica) nasceu como um empreendimento estatal com o objetivo de promover a integração nacional e atuou desde o início como um dos pilares da identidade nacional belga.

 

No dia 1º de maio de 1834, foi criada a Belgische Statspoorwegen (em francês: Chemins de fer de l’État Belge), que iniciou suas atividades no dia 1º de junho do mesmo ano. Sua primeira linha, que ligava Bruxelas a Mechelen em um percurso de 20,4 quilômetros de extensão, foi inaugurada no dia 5 de maio de 1835. Sua festiva inauguração contou com a presença do engenheiro inglês George Stephenson, cuja companhia forneceu três locomotivas (uma das quais, inclusive batizada com o nome de seu projetista) baseadas no design do modelo Rocket e parte do material rodante para o transporte de mercadorias e passageiros. O ritmo acelerado das obras nos anos 1830 permitiu uma rápida recuperação econômica e deu grande impulso ao processo de industrialização no país, com a inauguração dos trechos Mechelen – Antuérpia (03 de maio de 1836); Mechelen – Dendermonte (28 de setembro de 1837); Derdemonde – Gent (22 de agosto de 1838); Brügge – Ostende (28 de agosto de 1838); Mechelen – Leuven – Tienen (21 de setembro de 1837) e Gent – Deinze – Kotrijk (22 de setembro de 1838).

 

Por volta de 1842, quando a rede da Belgische Statspoorwegen (em francês: Chemins de Fer de Belgique) já possuía cerca de 220 quilômetros de extensão, o governo começou a vender concessões para empresas privadas construírem e operarem linhas férreas no país, sem entretanto deixar de servir ao projeto de integração nacional concebido desde o início da história ferroviária do país. O período compreendido entre as décadas de 1840 e 1870 foi marcado pelo florescimento de diversas empresas dedicadas a operar as linhas planejadas pelo governo por meio de concessões, dentre as quais pode-se destacar a Compagnie du Chemin de fer d’Anvers à Gand (31/03/1845 – ??/??/????), que ligava Anvers a Ghent via Saint-Nicolas e Loreken; Grande Compagnie du Luxembourg (11/09/1846 – 31/01/1873), que ligava Namur a Arlon; e a Compagnie du Chemin de Fer de Dendre et Waes (13/05/1852 – 01/01/1876), que operava as linhas Bruxelas – Ghent – Alost e Dendre – Aalst – Lokeren; e a francesa Compagnie des Chemins de Fer du Nord, que operava as linhas Liège – Namur e Namur – Dinant – Givet por meio da subisidáia Compagnie du Nord (10/09/1854 – 10/05/1940).

 

A distribuição de concessões teve seu fim em 1868, quando a empresa francesa Compagnie des Chemins de Fer de l’Est tentou adquirir diversas linhas nas províncias de Liège, Limbourg e Luxembourg em uma transação que, em meio às tensões políticas da época, foi visto pelo então rei dos belgas Leopoldo II como uma manobra política e militar do governo francês, que já mobilizava-se estrategicamente para uma possível guerra contra o Reino da Prússia e a Confederação Germânica. A intervenção do governo belga quase culminou em uma invasão francesa, que entretanto não ocorreu devido à deflagração da guerra Franco – prussiana (19/07/1870 – 10/05/1871), que terminou na derrota francesa e formação do Império Alemão (em alemão: Deutsches Reich). Nessa época, quando a extensão de linhas nas mãos de companhias privadas ultrapassava os 2.200 quilômetros frente aos 860 quilômetros de ferrovias estatais, o governo começou a encampar as concessões arrendadas, de forma que em 1910 a rede administrada Chemins de Fer de Belgique possuía 4.330 quilômetros, ao passo que apenas 391Km de linhas estavam sob a gestão de companhias privadas.

 

A nacionalização foi promulgada em em 01/09/1926 quando da criação da SNCB/NMBS (em francês: Societé Nationale des Chemins de Fer Belges; em neerlandês: Nationale Maatschappij der Belgische Spoorwegen), nova empresa estatal que encampou os ativos da antecessora Chemins de Fer de Belgique e outras ferrovias privadas, com exceção de seis companhias, que foram encampadas nas décadas seguintes: Momignies – Hastière, Ghent – Sas van Ghent, Hasselt – Maaseik, Taviers – Embresin. Por fim, o processo de estatização foi concluído quando da encampação da Compagnie de Chimay, em 1948. Organizada e administrada diretamente pelo Ministério das Ferrovias, Telégrafos e Correios, a nova companhia tinha como objetivos principais a reestruturação financeira e organizacional do sistema ferroviário, estancando os gastos excessivos, corrupção e reorganizando o quadro de funcionários de forma a eliminar cargos desnecessários e ampliar as áreas mais necessitadas, de acordo com as novas demandas que eram completamente diferentes daquelas da primeira metade do Século XIX. Constituída como uma Sociedade Anônima, o governo manteve apenas as ações preferenciais e vendeu as ordinárias no mercado para ampliar a capitalização para a realização das reformas estruturais necessárias nos primeiros anos de operações. Novamente, a SNCB/NMBS como a primeira companhia ferroviária estatal e de abrangência nacional da Europa, é mais uma inovação belga nesse setor.

 

As mais notórias medidas da nova empresa foram a eletrificação das linhas de maior tráfego, começando pelo trecho Bruxelas – Antuérpia em 1935 em corrente contínua de tensão 3.000 Volts e a criação de serviços streamliners (expressos de alta velocidade precursores dos Trens de Alta Velocidade) nas linhas Bruxelas – Ghent Bruxelas – Antuérpia e Bruxelas – Ostende em 05/05/1939. Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial em setembro do mesmo ano (01/09/1939 – 02/09/1945) grande parte da infraestrutura da companhia foi danificada, o que levou muitos acionistas a venderem sua participação, e logo o governo recomprou praticamente todo o controle da empresa. Após o fim do conflito, a SNCB/NMBS foi amplamente utilizada como uma das principais ferramentas de construção do modelo macroeconômico que viria a tornar-se o Welfare State europeu, por meio do qual os serviços de transporte eram exercidos pelo Estado como uma atividade de utilidade pública para os interesses da população e do desenvolvimento do país. Nas décadas de 1950 e 1960 foi retomada a ampliação da rede elétrica e teve início o processo de dieselização, com a utilização de locomotivas diesel – elétricas nas rotas de médias e longas distâncias e diesel – hidráulicas com predominância nos serviços de curtas distâncias e de manobras. O último trem a vapor circulou no dia 20 de dezembro de 1966, entre Ath e Denderleew, e a locomotiva utilizada foi recolhida para preservação, encerrando a era do vapor na NMBS.

 

A partir dos anos 1980, teve início uma nova transformação nas ferrovias belgas, com a erradicação de ramais pouco movimentados e a padronização de serviços intermunicipais InterCity (P Trains) e InterRegio (L Trains) de forma mais similar aos utilizados nos países vizinhos, de forma que em 1984 a NMBS/SNCB cobriu com 13 linhas IC e 16 linhas IR cobrir as setenta principais estações de sua rede. Ainda, foram criados os serviços turísticos (T Trains) que operam nos meses de férias nas mesmas rotas dos P e L Trains (os serviços IR foram unificados nos IC em dezembro de 2014). Em 1997 foi inaugurada a rota HSL1 (em neerlandês: Hogesnelheidslijn 1; em inglês: High Speed Line 1), ligando Bruxelas (Bruxelles Midi) à fronteira com a França, onde continua como a LGV Nord (Ligne à Grande Vitesse Nord) da SNCF que segue para Lille, Paris (Gare du Nord) e Londres (Saint Pancras). Cinco anos depois, entrou em operações a HSL2, que liga Leuven a Liège (Liège Guillemins); e em 2009 as linhas HSL3, que liga Liège (Liège Guillemins) a Aachen e HSL4, que liga Antwerpen a Roterdã (Roterdaam Centraal). Por fim, a SNCB participou da criação das companhias dedicadas à realização de serviços internacionais de alta velocidade Eurostar (1994) e Thalys International (1995), junto com as companhias ferroviárias SNCF (Societé Nationale des Chemins de Fer), DB(Deutsche Bundesbahn) e NS(Nederlandse Spoorwegen).

 

Com a liberalização do tráfego ferroviário europeu em 2005, a SNCB/NMBS foi dividida em quatro empresas: NMBS/SNCB Holding (Holding de administração); Infrabel (responsável pela infraestrutura e administração da malha ferroviária), NMBS/SNCB (a própria companhia ferroviária de transporte de passageiros e mercadorias) e a HR Rail, responsável pelas contratações e serviço de RH do setor ferroviário. Nessa estrutura administrativa, o governo possuía 80% da Infrabel e 99,99% da NMBS/SNCB Holding, que por sua vez, possui os restantes 20% de participação da Infrabel. Em 2013, a NMBS/SNCB Holding deixou de existir e as outras três empresas passaram a ser administradas diretamente pelo governo belga, por meio do Ministério dos Transportes. Por fim, a Companhia adota uma bem planejada política de descontos com o objetivo de aliviar o tráfego nas rodovias, principalmente para estudantes, idosos e ferroviários, e pela ampla acessibilidade por meio de vendas online e bilheterias de venda física e eletrônica nas estações que caracterizam o objetivo principal das ferrovias belas desde o surgimento: servir à população e aos interesses de integração nacional.

 

Imagens:

 

Apesar de os três idiomas oficiais da Bélgica serem o francês, neerlandês e alemão, a Companhia apenas utiliza as siglas em francês (acima) e em neerlandês (abaixo). O logo da letra B inserido no oval horizontal foi desenhado em 1936 por Henry Van de Velde, com o objetivo de transmitir a neutralidade da razão social da empresa nos três idiomas falados no país

 

Mapa da rede viária da NMBS/SNCB mostrando as linhas e estações da Companhia 

 

Trem a vapor da SNCB em 1955 na estação Bruxelles Nord. Foto de Rail Archive Stephenson

 

Locomotiva a vapor Class 120 em um trem comemorativo dos 150 anos da ferrovia na Bélgica, em 22 de setembro de 1985. Fotografia de Brian Stephenson, tirada em um túnel perto de Lustin na linha Namur – Dinant

 

Autotrem formado por uma locomotiva a diesel e vagões de carga especiais para o transporte de automóveis. Foto de Josep M Farre, de julho de 2007

 

Locomotiva a vapor Streamliner Class 120 preservada na estação Bruxelles Zuid em setembro de 2007, por bfsSwiss

 

Locomotiva diesel – elétrica nº5514 na estação Bruxelles Zuid. As seis unidades da Class 55 (locomotivas nº5501, 5506, 5509, 5511, 5512 e 5514) são utilizadas para serviços auxiliares com trens de alta velocidade avariados. Foto de 15/09/2007, por bfsSwiss

 

Trem turístico da NMBS/SNCB com a locomotiva a vapor 64.169 modelo Ten Wheeler (rodagem 4-6-0) em Moha, uma pequena vila perto de Liège. Foto de 29 de março de 2008, por Fabrice Lanoue

 

Gàre da estação Antwerpen Centraal. Sem data

 

Antigo trem-unidade elétrico em Habay-la-Neuve, em fevereiro de 2010. Foto de Kilroy1313

 

Rara fotografia de uma composição da Thalys formada por um modelo PBKA acoplado a um PBA em formação dupla passando por Tubise. Foto de abril de 2010, por François Pobez

 

Trem-unidade AM96 nº539 partindo de Antwerpen Centraal, por Martin Bennet

 

Trem intermunicipal com uma locomotiva Class 19 passando pela estação Hansbeke, em Ghent. Foto de Brian Stephenson, de 9 de março de 2013

 

Thalys 4343 na estação Liège Guillemins em abril de 2013, por James Stearn

 

Trens no interior da estação Liège Guillemins. Via Eurail Travels

 

Locomotivas a vapor da NMBS/SNCB preservadas pela entidade de preservação ferroviária Chemins de Fer à Vapeur des 3 Vallées, em Mariembourg. Fotografia de 28/09/2014, por Jean-Marc Frybourg

 

Comboio turístico da Chemins de Fer à Vapeur de 3 Vallées no outono de 2014, por Jean-Marc Frybourg

 

Amanhecer nas planícies belgas, por Wim Ameele

 

Trem da B-Cargo (divisão de transporte de mercadorias da NMBS/SNCB) trafegando sob nevasca no inverno de 2015 em Carlsbourg, por Wim Ameele

 

Trens de alta velocidade Thalys (à direita) e ICE (à esquerda) nas plataformas de Bruxelles Midi. Via Raileurope

 

Eurostar vindo de Londres rumo a Bruxelas voando sobre os trilhos nas proximidades de Beersel em março de 2015, por Gonçalo Ribeira

 

Trem unidade elétrico modelo AM379 nas proximidades de Hoeselt, em abril de 2015. Foto de Ivo Van Steenwinkel

 

Trem de passageiros em Liège Guillemins, fotografado em um ótimo ângulo para visualizar a bela arquitetura da estação. Foto de Markus Gmür

 

Composição de mercadorias da B-Cargo puxada por uma locomotiva elétrica HLE nº2805 em Hoeselt, por Ivo Van Steenwinkel

 

Fim de tarde na estação Antwerpen Centraal, em abril de 2015, por Markus Gmür

 

Trens intermunicipais da NMBS/SNCB em Antwerpen Centraal, por Markus Gmür

 

Trens-unidade da SNCB (à esquerda e à direita) com a pintura amarela e a letra B da Companhia ao lado de um TUE da Chemins de Fer Luxembourgeois em Athus. Foto de Markus Gmür, de abril de 2015

 

Locomotivas Siemens ES60U3 da família Vectron (numeradas na NMBS como Class 18) nº1808, 1853 e 1840 em Oostende, por Danny Debusseré

 

Eurostar na plataforma especial de Bruxelles – Midi aguardando embarque para Londres. Como o Reino Unido não faz parte do Tratado de Schengen, os passageiros precisam passar por controle de imigração, por isso o uso de uma plataforma separada na estação. Foto de 28/02/2016, por Arthur Bilheri

 

Trens de alta velocidade Thalys PBKA (à direita) e TGV Réseau (à esquerda) na estação Bruxelles Midi. Foto de 28/02/2016, por Arthur Bilheri

 

Típico trem regional da SNCB, formado por uma locomotiva Class 18 e carros M6 double deck (dois andares). Fotografia tirada em Eppegem em abril de 2016, por Ivo Van Steenwinkel

 

 

Fontes: Infrabel (https://www.infrabel.be/en); Ferreoclube (http://www.ferreoclube.com.br); Les Societés Anonymes de Belgique- Adolphe Louis Joseph Demeur; Mapped Planet (http://www.mappedplanet.com); NMBS/SNCB (http://www.belgianrail.be/en/corporate/company.aspx); Oberegger2.org (http://www.oberegger2.org); Raileurope (https://www.raileurope.com/index.html); Railpictures (http://www.railpictures.net

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