Nos trilhos de Portugal

Por: Ferreoclube   Dia: 17 de janeiro de 2017

Pela quarta vez que vou a Portugal, fui lendo Senhores dos Trilhos no avião (não dormi nem três horas na ida) com o objetivo de encontrar algumas respostas sobre o Brasil, esse País que parecemos nunca compreender e atualmente parece estar mais do que nunca na busca de si próprio, e pela primeira vez como Rail Guide de meus dois grandes e velhos amigos Lucas e Pedro Camano e seus pais – Fábio e Ana Paula – que nunca haviam andado de trem na Europa.

 

Esse pequeno país pobre tem, pelo menos para os brasileiros que não o olha com a mentalidade obtusa do ensino doutrinário de Paulo Freire que afirma, segundo Eduardo Galeano, que a causa de nossos problemas foi a colonização, um quê de especial, a começar pela companhia aérea TAP, que com seus serviços de excelência, aparenta voar sobre o Atlântico há mais de quinhentos anos, como fazem os portugueses desde que descobriram o Brasil.

 

Nesse belo país que sabe muito bem preservar seus costumes e tradições, principalmente o fervor religioso, frente ao califado em que vêm tornando-se a França e Alemanha, que D. João VI e foi um dos maiores reis da Europa ao fugir com a corte ao Brasil e salvar Portugal dos destrutivos ideais da Revolução Francesa que levaram a França e boa parte do continente a uma longa decadência que perdura até hoje.

 

Para nós, a melhor parte talvez seja atravessar o oceano e não precisar falar inglês para se fazer entender, assim como para eles ouvir um estrangeiro falando em sua língua natal, tão pouco falada mundo afora. E é sempre divertido falar com nossas diferenças de séculos separados pelo mar e alguns milhares de imigrantes que separaram o português brasileiro do lusitano, as piadas que fazem de nós do mesmo jeito que fazemos deles e diversos trocadilhos que somente quem realmente domina o idioma português consegue fazer:

 

  • Se as filas são bichas, como chama-se as bichas aqui?
  • Não temos, mandamos todas ao Brasil, principalmente ao Rio Grande do Sul.

  • Tem croissant de chocolate?
  • Tem, mas não há.

  • Queria passagens de comboio para Coimbra.
  • Queria? Não queres mais?

  • Sobe?
  • Não, está parado.

  • A pastelaria está aberta?
  • Sempre esteve, desde 1860.

 

Os portugueses inclusive parecem conhecer o Brasil às vezes mais do que nós mesmos, como pelo sotaque, que por aqui praticamente não notamos – me perguntaram diversas vezes “És de São Paulo, não?” pelo sotaque de paulista que difere gritantemente da pronúncia lusitana fechada e arrastada, assim como reconhecem brasileiros de diversas regiões do País pelo modo que falam.

 

Em alguns momentos, apesar de sermos de países separados há quase duzentos anos, evidenciam-se as inúmeras semelhanças que temos com nossos antigos colonizadores, como o orgulho da terra natal misturado no amargo sofrimento de um povo esperançoso e de um País que, assim como sua antiga colônia, ressente-se de não ser a potência mundial que desejaria – eles, o Império que perderam, nós, a potência que tentamos nos tornar – cantado pelos fadistas que tocam nossos corações com as belas letras que, ao contrário dos turistas do resto do mundo, temos o privilégio de conseguir entender no nosso belo e profundo língua materno.

 

Chama a atenção a dedicação que têm ao Brasil – coisa que falta por aqui entre nós há décadas. Nas livrarias, nos oferecem Machado de Assis, Lima Barreto, Aluísio de Azevedo e Olavo Bilac; em diversas bancas há notícias do que se passa por aqui, e quanto a algumas esparsas bandeiras verdes e amarelas espalhadas pelas janelas, me foi respondido: “Estamos tristes pelo que está acontecendo com o Brasil. Saiba que estamos torcendo por vocês do outro lado do Atlântico. “

 

Em meio às cidades em que ainda há imóveis fechados desde tempos imemoráveis, pertencentes por lei aos descendentes de portugueses que deixaram sua terra natal e que o Governo não pode tocar, o esforço do pequeno reino europeu de ter desbravado o mar em busca de novos Mundos para o Mundo e criado o nosso em outro continente permanece mais vivo do que nunca, assim como esclarece de forma mais profunda os versos de Fernando Pessoa:

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal

Por te cruzarmos, quantas mães choraram

Quantos filhos em vão rezaram

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

Um sentimentalismo que parece não haver com os Impérios Britânico e os demais, que dominaram o mundo com uma relativa maior facilidade. Colonizar o Brasil certamente é um feito de, o que me lembra o que um guia em um museu disse certo dia sobre tamanha simpatia aos brasileiros: “Vocês são a maior criação e o maior legado do Império  e do povo portugueses, a grandeza do Brasil é o esplendor de Portugal.”

 

Por mais vergonhosos que possamos estar parecendo aos olhos do mundo com os imensos escândalos de corrupção e o colapso da infraestrutura básica, como a saúde, educação e transportes, somos de forma amarga e esperançosa, o orgulho desse caloroso povo que partilha conosco a mesma amargura e esperança com sua pátria amada.

 

Pelo menos para mim, Portugal relembra o orgulho de ser brasileiro. E vocês?

  • João R.   

    Indo de Lisboa para o Porto pelo Alfa Pendular a 220 Km/h

     

    Trens da CP na estação Campanhã, no Porto

     

    Belíssima gàre da estação São Bento, na Cidade do Porto, com os belos azulejos comuns no país

     

    Adivinhem quem vai comprar e recarregar os bilhetes do Metropolitano do Porto para todo mundo?

     

    Bilhete Andante do Metropolitano do Porto recém recarregado na máquina

     

    Composição do Metropolitano do Porto, pouco maior que um VLT comum e que trafega em alguns trechos subterrâneos no centro da cidade. Foto na estação São João, perto das 22h

     

    Da esquerda para a direita: Regina Rodrigues, Ana Paula Camano Passos, Lucas Camano, Fabio Barros e Pedro Paolo Camano no banco da estação João de Deus, esperando pelo comboio para o Bolhão

     

    Mapa do Metropolitano do Porto em uma composição

     

    Selfie no Metro do Porto

     

    Mais cliques do nosso passeio no Metro do Porto

     

    Vista noturna sobre a Ponte Luís I da janela do comboio

     

    Eu e Pedro Paolo no Metropolitano

     

    Estação do Bolhão, a mais próxima do nosso apartamento alugado pelo Airbnb

     

    Eu e o elétrico (bonde) do Porto clicados pelo Fabio Barros

     

    Eu e o Fabio a bordo do elétrico nas ruas do Porto

     

    Mais selfie dentro dos simpáticos bondinhos do Porto…

     

    Comboio 3413 da CP Urbanos do Porto na estação São Bento

     

    João e Luquinhas a bordo do 3413

     

    Selfie na classe Turismo do Alfa Pendular, no caminho do Porto para Coimbra

     

    Eu e um belo sinaleiro na estação Coimbra B

     

    Não é só no Brasil que passa trem de carga (às 18 horas!) nas estações e o seu trem de passageiros atrasa…

     

    Intercidades de Coimbra para Porto chegando atrasado, já de noite. Interessante notar que a locomotiva é do mesmo modelo (Série 5600) que passou com a composição de carga 20 minutos antes.

     

    Clique de um Trem – unidade da Série 2240 em Coimbra, que fiquei observando por quase duas horas na estação, enquanto já pensava em escrever diversos artigos sobre os comboios portugueses…

     

    Selfie a bordo do Intercidades de Coimbra com destino ao Porto

     

     

     

    Agradecimentos especiais:

  • Ana Paula Camano Barros
  • Fabio Barros
  • Lucas Camano
  • Pedro Paolo Camano
  • Regina Rodrigues

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