Companhia E.F. do Dourado

Por: Ferreoclube   Dia: 18 de dezembro de 2016

A CEFD- Companhia Estrada de Ferro do Dourado foi uma empresa ferroviária fundada em 1898 com o objetivo de atender às lavouras da região conhecida como Araraquarense, onde estava inserida a então Vila de Dourado. Nas décadas de 1880-90, o cultivo do café alastrava-se pela região, ao passo que a Companhia Paulista ainda não havia estendido suas linhas para além de Ribeirão Bonito. A E.F. Dourado foi fundada em 1898, quando Ciro Marcondes de Resende obteve uma concessão do Estado de São Paulo para iniciar a construção de uma estrada de ferro ligando Ribeirão Bonito a Dourado.

 

Os estudos da ferrovia foram aprovados em 07/08/1899, e a primeira linha da E.F. Dourado, inaugurada em bitola estreita(0,60m), no dia 02/12/1900. A chegada do trem inaugural em Dourado foi recebida festivamente, em um grande evento com a cobertura de diversos jornais, como O Estado de São Paulo: “Grande foi a multidão que aguardava a chegada do trem inaugural, no qual vieram famílias, pessoal do foro de Ribeirão Bonito, inclusive o juiz de direito. O Correio Paulistano, o Comércio de São Paulo e o Diário Popular estiveram representados nesse dia em que a Vila de Dourado apresentava aspecto deslumbrante!”. Três anos depois, a linha de apenas 10Km de extensão seria estendida até Boa Esperança, perfazendo 42Km de extensão, e em 1906 já chegava a Ibitinga, no quilômetro 148.

 

Tão logo a linha tronco chegou a Ibitinga, o traçado da linha tronco foi alterado, com a construção de uma nova linha de bitola métrica entre Ribeirão Bonito e Trabiju, passando por fora da Serra dos Dourados, e a antiga linha que passava por Dourado passou a chamar-se Ramal de Dourado. Até 1922, praticamente todas as linhas da empresa já operavam em bitola métrica, salvo o ramal de Dourado, que permaneceu em bitola 0,60m até a sua desativação em 1933. Com as mudanças no traçado e alargamento da bitola, a CEFD passou a integrar-se com a Companhia Paulista em Ribeirão Bonito e Jaú, e com a E.F. Araraquara em Tabatinga, constituindo uma vasta rede ferroviária que ligava diversas cidades pequenas aos grandes corredores de exportação de café da região. Conforme descrito por Alberto H. Del Bianco, a Cia. E.F. Dourado promoveu o desenvolvimento de diversos núcleos de colonização, principalmente por imigrantes de origem italiana, de maneira capilarizada pela região Araraquarense, dentre os quais destacam-se as cidades de Nova Europa e Nova Paulicéia.

 

Seguindo a expansão das lavouras cafeeiras, a CEFD passou a constituir uma ampla extensão da malha da Companhia Paulista, com cerca de 350 quilômetros de linhas no começo da década de 1940. De sua linha tronco, com 212Km de extensão, saíam os ramais de Posto Rangel(construído em 1910), no quilômetro 33, que bifurcava-se em Posto Rangel(Km63) dando origem aos ramais de Bariri(construído em 1910) e Jaú Dourado(construído em 1929); e o Ramal de Itápolis, construído em 1915, que saía de Tabatinga, no quilômetro 102. O último trecho construído pela companhia foi a extensão da linha tronco de Tabatinga a Novo Horizonte, inaugurada em março de 1939.

 

Na década de 1930, a Companhia Douradense contava com quase duzentos trabalhadores entre chefes e mestres de linha, maquinistas, carpinteiros, serventes e escriturários. Como parte do material rodante, estavam em operação dezessete locomotivas de bitola métrica e quatro de bitola estreita, um carro de administração, dois autos de linha, além de diferentes tipos de vagões para o transporte de animais e bagagens

 

O início do fim da E.F. Dourado começou na segunda metade da década de 1940, quando a ferrovia passou a sofrer ampla concorrência com o transporte rodoviário, e começou a enfrentar dificuldades de geração de caixa, com a deserção de diversos clientes que passaram a preferir o modal rodoviário. A precariedade de suas linhas, que haviam sido construídas quando o trem era o único meio de transporte local, fazia da CEFD uma empresa pouco competitiva frente à nova concorrência que mostrava-se mais versátil e de menores custos operacionais. Também pesaram as fortes quedas dos preços do café desde a crise de 1929, que reduziram consideravelmente as receitas geradas por suas linhas, nas quais o café era a principal mercadoria transportada. Com a insolvência e alto grau de endividamento com a Companhia Paulista, que financiava diversas operações na pequena ferrovia, a E.F. Dourado foi adquirida pela CPEF em 1949.

 

 

A Companhia Paulista, no entanto, via futuro na companhia adquirida, e investiu pesadamente na reforma das linhas, reconstrução de estações, aquisição de novo material rodante e estabelecimento da ligação direta entre Novo Horizonte e São Carlos, sem a baldeação em Ribeirão Bonito. No entanto, os investimentos na ferrovia não lograram muito retorno, e as linhas foram erradicadas durante o programa de erradicação de ramais antieconômicos promovido pelo governo federal no final da década de 1950 e início dos anos 1960. A partir de 1964, suas linhas começaram a ser erradicadas, sobrando apenas a linha tronco entre Ribeirão Bonito e Ibitinga quando a ferrovia foi fechada. No dia 2 de janeiro de 1969, partiu o último trem de São Carlos para Ibitinga, fato noticiado na Folha em uma dramática manchete: “À meia-noite de hoje morre o Ramal de Ribeirão Bonito”. A Estrada de Ferro do Dourado tragicamente deixava de existir, sobrevivendo apenas nos livros e na memória dos que viajaram e trabalharam nela e os que dedicam-se à preservação de sua história.

 

Imagens:

Locomotiva nº1 da CEFD, anos 1900. Acervo de Alberto H. Del Bianco

Locomotiva nº1 da CEFD, anos 1900. Acervo de Alberto H. Del Bianco

 

Locomotiva nº14 da CEFD, renumerada para 861 após a aquisição pela CPEF. Acervo de Alberto H. Del Bianco

Locomotiva nº14 da CEFD, renumerada para 861 após a aquisição pela CPEF. Acervo de Alberto H. Del Bianco

 

Locomotiva 861 CPEF em preservação estática na Cidade de Deus em Osasco, pelo Bradesco. Sem data

Locomotiva 861 CPEF em preservação estática na Cidade de Deus em Osasco, pelo Bradesco. Sem data

 

Composição de passageiros na estação Trabiju, anos 1960. Acervo de Alberto H. Del Bianco

Composição de passageiros na estação Trabiju, anos 1960. Acervo de Alberto H. Del Bianco

 

Estação de Trabiju, em 15/07/2000. Foto de Filipe Giesbrecht

Estação de Trabiju, em 15/07/2000. Foto de Filipe Giesbrecht

 

Manchete do jornal Folha da Manhã noticiando a inauguração da linha para Novo Horizonte da CEFD. Acervo de Ralph Giesbrecht

Manchete do jornal Folha da Manhã noticiando a inauguração da linha para Novo Horizonte da CEFD. Acervo de Ralph Giesbrecht

 

Mapa das linhas da E.F. Dourado, por Thales Veiga

Mapa das linhas da E.F. Dourado(em amarelo), por Thales Veiga

 

Vista aérea de Posto Rangel, mostrando o triângulo de reversão no canto inferior esquerdo, a linha para Bariri no canto superior esquerdo e a via que seguia para Jaú, entre a plataforma e o triângulo. Acervo de Alberto H. Del Bianco

Vista aérea de Posto Rangel, mostrando o triângulo de reversão no canto inferior esquerdo, a linha para Bariri no canto superior esquerdo e a via que seguia para Jaú, entre a plataforma e o triângulo. Acervo de Alberto H. Del Bianco

 

Placa da antiga estação de Santa Clara. Acervo de Ralph Giesbrecht

Placa da antiga estação de Santa Clara. Acervo de Ralph Giesbrecht

 

 

Fontes: As Ferrovias do Brasil nos cartões postais e álbuns de lembranças – Gerodetti & Cornejo; Centro-Oeste (http://www.vfco.brazilia.jor.br); Companhia Paulista – A Ferrovia Padrão – Nilson Rodrigues; Douradense – A agonia de uma ferrovia – Ivanil Nunes; Estações Ferroviárias (http://www.estacoesferroviarias.com.br); Ferreoclube (http://www.ferreoclube.com.br); Museu Ferroviário Paulista (https://www.facebook.com/museuferroviariopaulista/?fref=ts).

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