Commuter Rail

Por: Ferreoclube   Dia: 1 de novembro de 2016

O serviço ferroviário conhecido como Commuter Rail é um conceito de transporte de passageiros entre centros urbanos próximos, como o Trinity Railway Express que liga Dallas a Fort Worth no Texas, O New Mexico Railrunner Express que liga Albuquerque a Santa Fe, dentre outras grandes e médias cidades. Distingue-se do serviço de subúrbio, como a CBTU da Grande São Paulo, Overground de Londres e S-Bahn das metrópoles alemãs e Dinamarca pelo caráter do tráfego, visto que ferrovias suburbanas apresentam alta pendularidade durante o dia em função de serem destinadas ao atendimento de cidades e bairros dormitórios, ao passo que os serviços Commuter possuem demanda mais regular, bem como intervalos maiores, em função da independência dos centros urbanos por onde passam. Também não podem ser classificados com os trens regionais pelo serviço direto e expresso entre os grandes centros urbanos, em contraste com o serviço regional que não necessariamente liga dois grandes centros e geralmente atendem a estações intermediárias.

 

Esse tipo de serviço não teve grande desenvolvimento no Brasil em função dos processo de urbanização das capitais e grandes cidades, caracterizado pela intensa suburbanização, restrição de área e tamanho das cidades em função da crônica carência de infraesturura, e grandes distâncias entre os centros urbanos pelo território nacional, que restringe consideravelmente o tráfego entre os mesmos, que na maioria das vezes terminou por ser assumido pelas pontes aéreas, que demonstravam-se uma alternativa mais viável na época. A formação dos centros urbanos no Brasil, portanto, possui características mais próximas do processo de urbanização ocorrido na Europa, embora por motivos distintos, sendo o fator mais comum de aproximação as semelhanças geográficas, que resultaram em uma distribuição espacial mais parecida dos grandes pólos urbano-industriais.

 

O único local em que surgiram as condições para o florescimento dos Commuter Trains foi o eixo Santos-Araraquara, passando por São Paulo, Campinas e São Carlos, no qual cresceram cinco grandes centros urbanos com atividade econômica independente e próximos o bastante para o atendimento por linhas férreas de média velocidade, porém não conurbados para a integração por uma malha ferroviária de caráter suburbano. O primeiro serviço ferroviário desse tipo surgiu em 1934, pela SPR, com a aquisição do conjunto de Trens-unidade a diesel conhecidos como Constelação(Cometa, Estrela, Planeta e Satelite) para a prestação de um atendimento rápido e de alto conforto para os passageiros na principais estações da ferrovia. A implementação desse serviço teve como principais fatores o eventual surgimento de uma concorrência com a E.F. Sorocabana no acesso ao Porto de Santos(A EFS inaugurou sua linha de acesso ao Porto em 1937) e a concorrência com os serviços rodoviários(que na época ainda eram incipientes). Esse serviço só seria continuado e ampliado em 1952 por iniciativa da E.F. Santos a Jundiaí, sucessora da São Paulo Railway Ltd. em uma continuação ao projeto da Constelação, que consistia no uso de composições a diesel em serviços rápidos e de alto conforto entre as principais estações da ferrovia. Com a eletrificação da ferrovia realizada pela estatal e uma maior exploração da Linha Tronco da Companhia Paulista, que de certa forma consistia em uma extensão da SPR(que inclusive possuía a concessão de construir linhas até Rio Claro), em uma forma de concorrer com os ônibus do Expresso Brasileiro, visto que nos anos 1950 apresentava forte desenvolvimento por todo o País.

 

A implementação do serviço commuter na E.F. Santos a Jundiaí foi realizada com a compra de 3 trens-unidade elétricos da English Electric denominados Gualixo, para reforçar os serviços já feitos pelos Trens-unidade a diesel Cometa, Estrella e Planeta, e estender o serviço até Campinas, por meio de uma parceria com a Companhia Paulista. O apelido desses trens surgiu com as corridas de cavalo(Gualixo era o nome de um famoso cavalo de corrida da época), devido à sua velocidade de tráfego relativamente alta, em comparação com os posteriores TUEs Série 101, adquiridos pela EFSJ para incrementar o serviço de subúrbios que até então era realizado por pequenas composições de locomotivas a vapor e a diesel e carros de passageiros. As tarifas iniciais do serviço eram promocionais, em clara concorrência ao modal rodoviário(A Rodovia Anhangüera, inaugurada em 1940 entre São Paulo e Jundiaí, que na época estendia-se até Limeira-SP, foi duplicada entre São Paulo em Campinas em 1953), que crescia rapidamente por todo o País, principalmente após o Plano de Metas do Governo JK. Os Gualixo possuíam 3 carros em formação R-M-R, possuíam cerca de 111.250Kg e potência nominal de 800HP, e alcançavam cerca de 110Km/h.

 

A EFSJ, no entanto, só receberia reforços em seu parque de tração elétrico nos anos 1970, sendo a primeira aquisição a dos TUEs das Séries 141(1969), 401(1976) e 600(1978), e as locomotivas elétricas remanescentes da EFCB(décadas de 1970-80). Dos novos trens-unidade, apenas os 141 eram destinados ao serviço commuter, ao passo que os 401 e 600 eram destinados ao reforço do atendimento dos subúrbios da ferrovia, que até então era realizado apenas pelos Budd 101. Os TUEs 141, no entanto, chegaram exatamente na mesma época em que os TUDs da Constelação da SPR foram baixados, e os Gualixos logo depois, e mesmo durante os anos 1970-80 contaram com apenas uma pequena presença dos Trens Húngaros da Ganz Mavag que operaram por algum tempo entre São Paulo e Rio Claro no mesmo serviço. Os anos 1970 seriam marcados pela atuação dos 142 praticamente sozinhos nos serviços commuter da SPR, que foram estendidos até Araraquara-SP, que destacavam-se por sua versatilidade e conforto nas viagens. Os 6 TUEs eram composições formadas por quatro carros, em formação MC-R-R-RC(Motor-Reboque-Reboque-Reboque Cabine) e distinguiam-se dos demais trens-unidade por poder operar desligados como carros comuns em outras composições(tanto na formação como destacados) e em operações push-pull. Como haviam sido fabricados 26 carros, a ferrovia possuía dois carros como reserva. Os TUEs Série 141 foram aposentados em 1996, durante o processo de desestatização e encostados na Lapa, salvo uma unidade que foi utilizada pela CPTM para o transporte de funcionários e chegou a fazer a extensão da Linha D-Bege(Rio Grande da Serra-Paranapiacaba) e foi desativada em meados de 2000.

 
Esse serviço único no Brasil foi desativado pela RFFSA em 1996(São Paulo-Santos e São Paulo-Campinas), devido à queda na demanda nos anos 1990, que o tornou altamente deficitário, e somente foi repassada à CPTM a operação suburbana na Região Metropolitana de São Paulo, nos trecho compreendido entre Jundiaí e Paranapiacaba. Apesar do projeto original da privatização da RFFSA prever a operação de serviços de passageiros por concessão a companhias ferroviárias da mesma forma que o transporte de cargas, tais concessões nunca foram realizadas, e algumas companhias ferroviárias de transporte de mercadorias assumiram alguns serviços de passageiros temporariamente, até o encerramento total por volta de 2001 por falta de passageiros e investimentos. A concessão dos serviços de passageiros da Fepasa até chegou a ser realizada quando a companhia ainda era estadual, tendo sido vencida pela Danúbio Azul, que possuía planos de realizar uma modernização nos serviços com carros usados da Amtrak, porém o projeto foi suspenso quando a Fepasa foi federalizada pelo governo Federal, durante o processo de desestatização da RFFSA na década de 1990. Em 2010 foi lançado o projeto Intercidades da CPTM, percorrendo a mesma rota mas como serviço regional. Os estudos foram concluídos em 2014, mas até 2016 nada havia sido feito, em função do atraso do governo federal em autorizar as obras nas linhas férreas.

 

Imagens:

Composição commuter da GO Transit, em Toronto, Canadá

Composição commuter da GO Transit, em Toronto, Canadá

 

Trem Gualixo da EFSJ, em 1977. Foto de Ivanir Barbosa

Trem Gualixo da EFSJ, em 1977. Foto de Ivanir Barbosa

 

Trem Gualixo nas proximidades da Luz. Anos 1950

Trem Gualixo nas proximidades da Luz. Anos 1950

 

Interior do Gualixo

Interior do Gualixo

 

Gualixo clicado por Ivanir Barbosa, em maio de 1976

Gualixo clicado por Ivanir Barbosa, em maio de 1976

 

Gualixo passando pelo Centro de São Paulo. Foto de Alberto Bianco

Gualixo passando pelo Centro de São Paulo. Foto de Alberto Bianco

 

Anúncio da E.F. Santos a Jundiaí de seus novos trens

Anúncio da E.F. Santos a Jundiaí de seus novos trens

 

Gualixo em Campinas, em sua viagem inaugural, em 1952

Gualixo em Campinas, em sua viagem inaugural, em 1952

 

Gualixo baixado em Paranapiacaba-SP, em 2012. Foto de Thales Veiga

Gualixo baixado em Paranapiacaba-SP, em 2012. Foto de Thales Veiga

 

Foto de fábrica do Gualixo

Foto de fábrica do Gualixo

 

Propaganda dos novos trens da EFSJ

Propaganda dos novos trens da EFSJ

 

TUE 141(esquerda) ao lado de uma automotriz Budd RDC(direita). Foto de Vanderlei Zago

TUE 141(esquerda) ao lado de uma automotriz Budd RDC(direita). Foto de Vanderlei Zago

 

TUEs Série 141 encostados na Lapa, em 2016. Foto de Rafael Massini Vilela

TUEs Série 141 encostados na Lapa, em 2016. Foto de Rafael Massini Vilela

 

141 da CPTM em Paranapiacaba, no fim dos anos 1990. Foto de Vanderlei Zago

141 da CPTM em Paranapiacaba, no fim dos anos 1990. Foto de Vanderlei Zago

 

TUE 141 na estação da Luz, nos anos 1980

TUE 141 na estação da Luz, nos anos 1980

 

Planta dos carros 141 da RFFSA

Planta dos carros cabine 141 da RFFSA

 

Planta dos carros 141 da RFFSA

Planta dos carros reboque 141 da RFFSA

 

141 em Campinas. Anos 1980

141 em Campinas. Anos 1980

 

Mapa do projeto Intercidades da CPTM, lançado em 2010

Mapa do projeto Intercidades da CPTM, lançado em 2010

 

 

Fontes: Ferreoclube(Http://www.ferreoclube.com.br); Museu Ferroviário Paulista(Https://www.facebook.com/museuferroviariopaulista/?fref=ts); Almanaque da RFFSA(Http://almanaquedarffsa.blogspot.com.br/); GO Transit(Http://www.gotransit.com/publicroot/en/default.aspx); E.F. Brasil: A eletrificação das Ferrovias Brasileiras(Http://www.pell.portland.or.us/~efbrazil/electrobras.html).

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