Klien Lindner

Por: Ferreoclube   Dia: 6 de setembro de 2016

Um dos maiores problemas que a indústria ferroviária enfrentou com locomotivas a vapor foi a articulação das máquinas nas curvas. Esse problema agravava-se com a implantação de ferrovias em terrenos irregulares, como no intrincado relevo do Sul de Minas Gerais, ou em casos de limitações financeiras, como no Nordeste. As linhas férreas construídas nessas condições terminavam por apresentar traçados péssimos, repletos de rampas íngremes, curvas fechadas, gabarito estreito e baixo limite de peso por eixo.

 

As difíceis condições dessas linhas férreas exigiam das locomotivas o máximo esforço de tração possível e alta aderência. para enfrentas as rampas, combinados à flexibilidade para passar pelas curvas fechadas. A grande complicação se dava na necessidade de mais eixos implicar uma base rígida maior, o que prejudicava a capacidade de inscrição em curvas fechadas, fator que motivou as mais diversas formas de articular as locomotivas para tal.

 

Um desses projetos de destaque foi o sistema Klien Lindner, patenteado na Saxônia(atualmente Alemanha) em 1890 pelos engenheiros ferroviários Ewald Klien e Heinrich Lindner. Baseado em um sistema pouco difundido de eixos radiais desenvolvido alguns anos antes na Inglaterra, esse modelo consiste na utilização de eixos ocos para garantir a rotação lateral das rodas da locomotiva.

 

Criado para máquinas com mais de dois eixos, o sistema Klien Lindner faz uso de eixos ocos com uma rótula central no qual ficam presas as rodas da locomotiva e um eixo de diâmetro menor no qual fica presa a braçagem que produz a rotação para o deslocamento. Assim as rodas podiam girar normalmente com maior flexibilidade no plano longitudinal, adequando-se mais facilmente às curvas. Também possuíam uma braçagem radial para ampliar a flexibilidade e garantir o alinhamento das rodas em trechos retos por meio de um sistema de molas.

 

As montagens mais comuns foram feitas em locomotivas 0-6-0T e 0-8-0T(mais comuns), os modelos mais comuns dessas ferrovias de características restritivas. Modelos de dois eixos não precisavam desse tipo de articulação(que requeria no mínimo três eixos para a instalação) enquanto as de cinco eixos praticamente não eram utilizadas em ferrovias de bitolas estreitas(menores que 1m). Os eixos ocos eram montados nos dois eixos das extremidades da base enquanto os centrais eram mantidos na forma convencional.

 

Foi rara a utilização desse sistema em locomotivas de bitola larga, dado o maior peso das máquinas e o uso de traçados menos restritivos, o que dispensava tamanha articulação. Assim como as locomotivas, o sistema também era restritivo quanto ao peso das máquinas, visto que a rótula interna dos eixos certamente desgastaria-se rapidamente em uma locomotiva pesada.

 

O modelo mais popular a utilizar a articulação Klien Lindner foram as alemãs 0-8-0T de bitola 0,60m “Brigadelok”, construídas entre 1905 e 1919 para o exército alemão. Foram construídas cerca de 3.000 unidades ao todo, por 14 fabricantes diferentes, dentre os quais destacam-se a Henschel e Orenstein & Koppell. Depois do fim da Primeira Guerra Mundial, essas máquinas foram vendidas para diversas ferrovias de pequeno porte ao redor do mundo, algumas das quais vieram parar no Brasil, principalmente nas mãos do Exército Brasileiro e da EFCB, que as utilizavam em linhas secundárias. Pelo menos três unidades sobreviveram no País: uma no Museu Ferroviário de São João Del Rey, uma na estação ferroviária de Ouro Preto e uma na estação ferroviária de Sete Lagoas-MG.

 

O sistema Klien Lindner caiu amplamente em desuso ainda na primeira metade do Século XX pelo desenvolvimento de formas mais eficientes e declínio das ferrovias de bitolas estreitas, como pode-se observar no Brasil, onde a quase totalidade das linhas de bitola 0,60m foi desativada ou rebitolada para 1,00m; e mesmo muitas de bitola métrica de traçado restritivo também foram desativadas por inviabilidade econômica. Também contribuiu para a aposentadoria dessas locomotivas o elevado custo de manutenção, apesar da simplicidade do sistema, que era caro de manter e gerava desgastes irregulares nos eixos e rodas, além dos descarrilamentos frequentes que ocorriam quando as molas estavam desgastadas. Além de não compensar a redução de custos com o desgaste da via, a manutenção era complicada pela escassez de recursos financeiros destinados às linhas nas quais as máquinas operavam, condição que também contribuiu para que esse interessante sistema caísse em desuso tão rapidamente como se popularizou.

 

Imagens:

 

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Da direita para a esquerda: Locomotiva preservada no Museu Ferroviário de São João del Rey; outro modelo preservado na estação de Ouro Preto e a terceira está na estação de Sete Lagoas-MG

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Vista inferior de um modelo de chassis de uma locomotiva 0-8-0T com o sistema Klien Lindner. Destaque nas rótulas nos dois eixos das extremidades, que também são mais grossos que os centrais

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Projeto de um eixo oco do sistema Klien Lindner mostrando o interior dos eixos e o seu encaixe

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Locomotiva Brigadelok 0-8-0T preservada no Deutsches Dampflokomotiv-Museum(German Steam Locomotive Museum) na Alemanha

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Eixo articulado aberto com a rótula central exposta

 

Fontes: Ferreoclube(http://Http://www.ferreoclube.com.br); German Steam Locomotive Museum(http://Http://www.dampflokmuseum.de); ABPF- Núcleo Oeste de Minas(http://Http://www.oestedeminas.org.br).

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