TUE Série 500

Por: Ferreoclube   Dia: 24 de agosto de 2016

O TUE Série 500 é um trem suburbano fabricado pela Hitachi-Nippon Sharyo entre 1975 e 1977 para a RFFSA. Nos anos 1970, o caótico transporte urbano da empresa era conhecido pela péssima qualidade: trens mal conservados e lotados, com acidentes frequentes, tanto humanos como operacionais, em virtude das dezenas de passageiros que viajavam pendurados nos trens como as frequentes quebras decorrentes da manutenção precária. O acidente mais famoso dessa época foi a colisão de um TUE Série 200 que descarirlou e colidiu com o barracão da Escola de Sampa Império Serrano, resultando em centenas de mortos e feridos, no Ramal Belford Roxo a poucos metros da estação Magno(próximo a onde hoje localiza-se o Mercadão da Madureira). Os protestos eram frequentes, e em muitas vezes a Polícia falhava em contê-los(ou com grande dificuldade), como nesse outro caso ocorrido no Ramal Japeri(onde eram comuns protestos e deprdações desse tipo) de 16/07/1975 descrito na Revista Veja:

 

“Às 3:30 da madrugada de quarta-feira da semana passada, uma rede de 40.000 volts caiu sobre uma composição estacionada em Bento Ribeiro, obstruindo o ramal. Obrigados a utilizar a linha Auxiliar, os trens passaram a circular em baixa velocidade e com atraso. Às 6:30,na estação de Tomás Coelho, superlotada em seus 300 metros quadrados, começou o primeiro quebra-quebra. O chefe da estação, Jorge Gonçalves da Cunha, chamou uma rádio-patrulha e tentou retirar os pingentes do trem. Foi afastado a socos e pontapés, e obrigado a assistir tudo do lado de fora, na companhia dos policias que também fugiram. A estação, a rádio-patrulha, os arquivos e os vagões da Central passaram a ser depredados e incendiados até as 7 horas, quando a tiros de metralhadoras e revólveres para o alto, soldados da PM conseguiram dominar a situação e permitir o trabalho dos Bombeiros.”(Revista Veja, 16 de julho de 1975, página 25)

 

A incompetência da RFFSA era notória, como descrito pelo General Dirceu Araújo de Nogueira, então Ministro dos Transportes, no segundo semestre do mesmo ano: “São homens dignos e trabalhadores que se vêem prejudicados pela RFFSA, quarenta anos atrasada no transporte de massas nos grandes centros.” A solução de curto prazo encontrada pela estatal, tanto em função do péssimo estado em que encontrava-se seu material rodante como pelos déficits e pequenos repasses de verbas, era sempre a compra de novos trens, que apenas mascarava os problemas no curto prazo. Em poucos anos, o material novo já encontrava-se altamente depreciado e em péssimas condições operacionais.

 

No segundo semestre de 1975, a priorização por medidas de curto prazo pode ser bem notada na declaração do então presidente Ernesto Geisel: “Eu quero resultados imediatos, o povo quer resultados imediatos”; dispensando a elaboração de soluções de longo prazo(cerca de 30 meses) proposta por Milton Gonçalves, presidente da RFFSA na época. Já no começo do ano seguinte, por meio de financiamento do BNDE(atual BNDES), a RFFSA encomendava 30 novos trens para os subúrbios cariocas.

 

Fabricados pela Hitachi-Nippon Sharyo, os novos TUEs também serviriam de vitrine da modernização das ferrovias do Rio de Janeiro, em um governo marcado por algumas tentativas de renovar o transporte ferroviário no Brasil, no qual destacam-se obras como a construção da cremalheira da Serra do Mar, em São Paulo, e a Ferrovia do Aço, ligando Jeceaba-MG a Volta Redonda-RJ. A Série 500 era a primeira a possuir caixa de aço inoxidável, gangway e bagageiros, além das chupetas e pega-mãos tradicionais. Chegaram a vir com um Kit Conforto, que contemplava aparelhos de ar-condicionado e bancos estofados, que no entanto, nunca foram usados. Esses trens alcançavam até 120Km/h, velocidade nunca atingida em função das restrições da via, e sempre operaram na faixa dos 70-90Km/h.

 

No curto prazo, os ER500 resolveram parcialmente a superlotação nas linhas suburbanas da RFFSA no Rio de Janeiro, aumentando consideravelmente a oferta nos horários de pico. Em 1984, com a criação da CBTU para assumir os precários sistemas urbanos da Rede, a maioria desses trens perdeu o Gangway, modificação feita para facilitar a apreensão dos camelôs pela Polícia nas estações(o que rendeu a esses trens o apelido de Caixotão).

 

Durante a curta gestão da Flumitrens, pouco foi feito com os TUEs Série 500 herdados da CBTU. Somente quando a Supervia assumiu a concessão da malha em 1998, esses trens seriam revitalizados pelo consórcio MPE-CCC. As alterações feitas foram a retirada das chupetas, a pintura colorida da Supervia, em contraste com a pintura discreta da RFFSA e CBTU, e algumas unidades receberiam ar-condicionado anos depois, por volta de 2012. Três unidades(509, 511 e 526) ganharam um carro adicional(reboques provenientes da canibalização de trens que seriam baixados), passando à excêntrica formação de cinco carros, em notório contraste com os tradicionais trens-unidade que possuem 3, 4 ou 6 carros. Essas unidades podem ser facilmente encontradas no Ramal Japeri, em engatados em outros trens de 4 carros, formando singulares composições de nove carros.
Outras unidades tiveram um fim diferente: três carros foram transformados em veículos para socorro da Supervia, e um quarto carro foi transformado em um “trem-escola”, em um projeto da ETEC Silva Freire, que opera em uma via em Nilópolis. Atualmente, o futuro desses trens é incerto, com a data de retirada de serviço estimada para 2020, visto que é pouco provável que a Supervia decida pela manutenção de trens tão antigos, quando certamente haverá no mercado outros mais novos, baratos e eficientes.

 

Imagens:

 

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Carro motor da Série 500 da RFFSA recém chegado no Rio de Janeiro

 

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TUE Série 500 com a pintura colorida da Supervia. Foto de Gustavo de Azevedo

 

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ER500 nas proximidades da estação Marechal Hermes. Foto de Andre Vasconcellos

 

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Unidade 524 na Central do Brasil, em 2012. Foto de Bruno Araújo

 

TUE Série 500 com a antiga pintura da CBTU(praticamente só a cor metálica da caixa)

TUE Série 500 com a antiga pintura da CBTU(praticamente só a cor metálica da caixa)

 

Unidade 513, uma das raras climatizadas dessa Série. Foto de Gustavo de Azevedo

Unidade 513, uma das raras climatizadas dessa Série. Foto de Gustavo de Azevedo

 

TUE Série 500 no Rio de Janeiro. Foto de Vanderlei Zago

TUE Série 500 no Rio de Janeiro. Foto de Vanderlei Zago

 

TUE Série 500 da Supervia no Ramal Japeri, em 22/07/2016. Foto de Eduardo Augusto

TUE Série 500 da Supervia no Ramal Japeri, em 22/07/2016. Foto de Eduardo Augusto

 

 

Fontes: Ferreoclube(Http://www.ferreoclube.com.br); Trens Fluminenses(Https://trensfluminenses.wordpress.com).

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