A Constelação da SPR

Por: Ferreoclube   Dia: 9 de agosto de 2016

Os trens unidade diesel-elétricos e elétricos da SPR marcaram uma época e simbolizaram a inovação e excelência do transporte ferroviário no Brasil em uma época marcada pelo desenvolvimento do modal rodoviário, que vinha representando, aos poucos, uma concorrência cada vez maior. Caberia à primeira ferrovia paulista, que nos anos 1860 trouxe a maior inovação logística do País, ao ligar a cidade de São Paulo e o interior do Estado ao Porto de Santos cruzando a Serra do Mar com o excepcional funicular, introduzir a mudança que talvez tenha sido uma das maiores no transporte ferroviário no quesito operacional. A aquisição dos primeiros trens-unidade do País trouxe às ferrovias uma grande otimização nas operações e garantiu a eficiência, eficácia e excelência no serviço de passageiros no setor ferroviário brasileiro.

 

A necessidade de buscar uma solução mais eficiente surgiu no começo dos anos 1930, quando a SPR começou a perder competitividade no transporte devido à demora no percurso no trecho da Serra do Mar, cuja necessidade de fracionamento dos trens acarretava demoras consideráveis de cerca de duas horas. Para o atendimento das necessidades da companhia, foi encomendado à empresa inglesa Whitworth Armstrong um trem composto por quatro carros e preparado com todo o conforto para oferecer aos passageiros a qualidade do padrão da São Paulo Railway. O primeiro trem-diesel elétrico do Brasil, composição formada por pequeno carro motor e três carros de passageiros, possuía um excelente padrão de acabamento com o amplo uso de materiais nobres, como os assentos forrados com couro escocês, lavatórios e caixas térmicas para bebidas para garantir o melhor conforto possível aos passageiros. Com 88 assentos de primeira classe(44 em cada carro), a composição possuía 36 assentos para a segunda classe no carro comando(que não era motorizado), oferecendo conforto para 124 passageiros no total.

 

Equipado com um motor a diesel da Sulzer de 450HP e motores de tração Crompton-Parkinson, somados à utilização de truques articulados entre o segundo carro, e entre o terceiro carro e o carro comando permitiam uma significativa redução de peso, fazendo com que seu peso fosse 125 toneladas, relativamente leve para seus 54m de comprimento. Inaugurado em 1934, sua entrada em operações foi um grande evento de repercussão nacional, e foi batizado de Cometa o trem que reduziu o tempo das viagens na SPR e representou o auge da qualidade do material rodante da companhia.

 

Tamanho foi o seu sucesso que em 1936 foram adquiridas outras duas composições para o aprimoramento dos serviços: Estrella e Planeta. Os dois novos trens, dotados de design aerodinâmico e truques convencionais, eram unidades de quatro carros com 134 assentos cada. Devido ao emprego de materiais leves como o alumínio, essas composições também eram mais leves que a média. Assim como o Cometa, eram notórios pelo luxuoso interior, dotado de isolamento acústico e térmico, e compartimentos especiais para bagagem e bar.

 

Também fazia parte dessa lendária frota a singular automotriz Satellite, encomendada em 1934 para o trecho São Paulo-Jundiaí, com enfoque no atendimento aos usuário da Seção Bragantina, que comumente percorriam o trecho Campo Limpo Paulista-Luz. Para complementar o serviço, havia uma outra automotriz semelhante de bitola métrica para a Bragantina. No entanto, o sucesso da automotriz não foi o mesmo do imponente trem-unidade(sendo que os trens Estrella e Planetta) foram encomendados justamente por causa disso) e a mesma foi transformada em ambulância alguns anos depois. O Satellite então passou a atuar no trecho de Alto da Serra, onde os trabalhadores da ferrovia estavam mais sujeitos a riscos de acidente no trabalho. A ambulância destacava-se pela prioridade no tráfego, que era interrompido para permitir sua passagem ou cruzamento na ferrovia.

 

Estes 4 trens ficaram conhecidos como “A Constelação da SPR”, eternizados como símbolo de excelência do transporte ferroviário no País, e como o prenúncio de um novo tipo de trem que nas próximas décadas conquistaria o serviço urbano das ferrovias urbanas no Brasil: os trens-unidade. Com a chegada dos TUEs Gualixo, Frota 101 e Série 141, os veículos da famosa Constelação foram perdendo espaço nas rotas regionais que faziam, somada à difícil manutenção do sistema diesel hidráulico e a idade já avançada dos trens. O primeiro trem baixado foi o Estrella, em 1963, em decorrência de um incêndio, e o Planeta, em 1967 também seria baixado pelo mesmo motivo. As demais unidades foram realocadas para o serviço de socorro na EFSJ, e foram abandonadas nos anos 1980.

 

O Cometa(já sem um carro reboque) foi cortado em Parapiacaba, em 1999, após tentativas fracassadas de preservação por parte de organizações britânicas. Os dois carros reboque do Estrella permaneceram no local até 2014, quando foram sucateados, em péssimas condições. O carro reboque do Planeta ainda está na vila, que foi mantido para a preservação do motor, o que ainda não foi feito. O Satellite encontra-se até hoje em Paranapiacaba, completamente sucateado. Os lendários trens da Constelação da SPR, que outrora representaram os anos de ouro do transporte ferroviário no Brasil são apenas sucata, bem como a maioria das ferrovias brasileiras, esquecidas pela maioria da população. No entanto, esses trens lendários resistirão para sempre nos livros e na memória daqueles que se dedicam à preservação da História ferroviária no Brasil.

 

Imagens:

Inauguração do Cometa em 1934

Inauguração do Cometa em 1934

 

Em Paranapiacaba- da esquerda para a direita: Satelite, Cometa, Estrela e Planeta

Em Paranapiacaba- da esquerda para a direita: Satelite, Cometa, Estrela e Planeta

 

Automotriz Satelite abandonada em Paranapiacaba

Automotriz Satelite abandonada em Paranapiacaba

 

Alexandre Valdes e a automotriz

Alexandre Valdes e a automotriz

 

Trem Estrela abandonado em Paranapiacaba. Novembro de 2009

Trem Estrela abandonado em Paranapiacaba. Novembro de 2009

 

O que restou do Estrela em 2015

O que restou do Estrela em 2015

 

Mais de perto

Mais de perto

 

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Inauguração do Cometa da SPR, em 1934. Foto de Thomas Correa

 

 

Fontes: Ferreoclube(Http://www.ferreoclube.com.br); Museu Ferroviário Paulista(Https://www.facebook.com/museuferroviariopaulista/?fref=ts); Livro “SPR- Memórias de uma inglesa”- Paulo Augusto Mendes, Moysés Lavander Junior.

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