Vale S.A.

Por: Ferreoclube   Dia: 3 de agosto de 2016

A Vale S.A.(fundada originalmente com o nome Companhia Vale do Rio Doce) é uma empresa brasileira do ramo de mineração e que também atua nos setores de siderurgia, logística, e energia fundada em 01/06/1942, em Itabira, Minas Gerais. Originalmente criada com o nome CVRD- Companhia Vale do Rio Doce, é a segunda maior mineradora do mundo, posição que alcançou com a aquisição da canadense Inco, e ficando atrás somente da anglo-australiana BHP Billington. A Vale também é a maior empresa privada do Brasil, e como Socidade Anônima, possui papéis negociados na Bovespa, NYSE, Euronext, Latibex e SEHK.

 

A mineradora foi criada durante o governo Vargas, que havia emcampado em 1930 as reservas de minério do País que até então eram exploradas pelo Brazilian Hematite Syndicate de Percival Farqhuar. Em 1942 foi oficialmente criada a Companhia Vale do Rio Doce como uma estatal em Itabira-MG, com o beneplácito dos Estados Unidos e Inglattera nos Acordos de Washington. A nova empresa tinha como principal cliente a CSN-Companhia Siderúrgica Nacional, e com o passar do tempo, passou a atender a outras siderúrgicas, tanto no Brasil como no exterior e a diversificar suas atividades para além da mineração.

 

A CVRD conquistou posição significativa no mercado internacional nos anos 1960, com o atendimento ao mercado de siderurgia japonês sob a liderança de Eliezer Batista, “o engenheiro ferroviário que ligou a Vale ao resto do mundo”. Percebendo a necessidade dos japoneses de expandir o parque siderúrgico, gravemente prejudicado na 2ª Guerra Mundial, criou o conceito de distância econômica, o que permitiu à Vale entregar minério de ferro no Japão a preços competitivos com o das minas da Austrália, pelo Porto de Tubarão. Em dois anos(entre 1960 e 1962) foram assinados diversos contratos de exportação com onze siderúrgicas japonesas, o que permitiu à Vale do Rio Doce conquistar uma fatia considerável do mercado de mineração e dobrar sua produção de minério de ferro, que atingiu 8 milhões de toneladas anuais em 1962.

 

“Abrimos o mercado para um produto que podia valer pouco, mas a ideia era ganhar dinheiro com a logística, transformando uma distância física(a rota Brasil-Japão-Brasil) em uma distância econômica(o valor necessário para colocar o minério nas usinas japonesas.”

 

Também em 1962 foi criada a Docenave- Vale do Rio Doce Navegação S.A., subsidiária integral da CVRD e em 1996 inaugurado o Porto de Tubarão, através do qual eram escoadas as produções de minério pela E.F. Vitória a Minas. Com a abertura desse sistema logístico, a Vale entrou em uma fase de crescimento vertiginoso, em que sua produção saltou de 10 milhões de toneladas/ano em 1962 para 18 milhões em 1970 e mais do que triplicou até 1974, ano em que atingiu os 56 milhões de toneladas/ano, quando a empresa conquistou a liderança mundial na exportação de minério de ferro, que mantém até hoje.

 

Em 1979, Eliezer Batista, que havia saído da presidência da CVRD em 1964, foi reconduzido ao cargo pelo então presidente João Figueiredo. Caberia a Eliezer, entre 1979 e 1986 a liderança de uma nova transformação na empresa que a tornaria a líder mundial do setor. Nessa época foi construído o Projeto Grande Carajás, que compreende um grande complexo de mineração no sul do Pará com a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, a Estrada de Ferro Carajás e o Porto de Ponta da Madeira.

 

No final dos anos 1960, as jazidas de Carajás descobertas pela Cia. Meridional de Mineração revelaram um extraordinário volume de minério de ferro de alto teor, de cerca de 36 bilhões de toneladas numa primeira avaliação. Diante da descoberta, o Governo Brasileiro, por sugestão do General Albuquerque Lima, então ministro do interior de Costa e Silva, aconselhou a USS Steel- da qual a Cia. Meridional era subsidiária, a negociar com a Vale do Rio Dove uma associação que resultou na Amazônia Mineração, com participação de ambas as empresas. Também foi criada, com a igual participação(50%/50%) a Valuec- Vale and USSteel Engineering and Consultants, responsável pela realização dos estudos de engenharia e que iniciou o projeto Grande Carajás.

 

A Estrada de Ferro Carajás foi iniciada em 1982 e concluída em 1985, com o objetivo de escoar a produção de minério das minas do Sul do Pará. A ferrovia de 892 Km ligando São Luís a Parauapebas com o tempo passou a transportar também granéis, atender a siderúrgicas instaladas na região, com destaque para a COSIMA-Companhia Siderúrgica do Maranhão, e a oferecer o serviço de transporte de passageiros, e, junto com a EFVM, é uma das únicas(ferrovias) do País a realizar o transporte de passageiros de longa distância. A EFC atualmente é uma das melhores ferrovias do Brasil, de acordo com a ANTF, e passa por diversas obras de ampliação para atender às demandas cada vez maiores tanto de passageiros como de mercadorias.

 

No dia 28/02/1985, junto com a EFC, também foi inaugurado o Terminal Marítimo Ponta da Madeira, adjacente ao Porto de Itaqui, em São Luís-MA; destinado à exportação de minério de ferro. Além do Europoort de Roterdam, Ponta da Madeira é o único do mundo capaz de comportar navios de 23m de calado(com exceção dos terminais petroleiros de alto mar). Atualmente a Vale está diversificando as cargas embarcadas no terminal para atender às demandas da Norte-Sul, que possuirá integração com a E.F. Carajás em Açaillândia-MA e passará a atender a um grande pólo siderúrgico na região, tendo em vista o grande potencial de crescimento da região.  

 

Essa expansão tem sido alvo de diversas críticas de ecologistas e ONGs locais que temem que a poluição resultante das atividades industriais em questão causem danos à cidade histórica de São Luis, tombada patrimônio da Humanidade pela Unesco, e ao ambiente local, que encontra-se muito próximo da Floresta Amazônica e Mata dos Cocais do Maranhão. Por outro lado, o crescimento da indústria no local poderá representar uma boa oportunidade para o desenvolvimento do Maranhão, que é um dos estados mais pobres do Brasil.

 

O Projeto Grande Carajás entrou em operação em 1985, o que permitiu à Cia. Vale do Rio Doce bater novos recordes na extração de minério de ferro, que chegou a 108 milhões de toneladas em 1989. Além do minério de ferro, também são exploradas na região reservas de manganês, cobre, ouro e outros minérios raros.

 

A CVRD foi privatizada no dia 06/05/1997, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, com financiamento subsidiado disponibilizado aos compradores pelo BNDES. O Governo Federal, no entanto, continuou com 41% do controle da empresa, enquanto o Consórcio Brasil liderado pela CSN adquiriu 27% do capital total da empresa, que representavam 41% das ações ordinárias da mesma, por cerca de US$3,3 bilhões. As ações preferenciais(sem direito a voto) continuaram nas mãos de acionistas privados. A privatização da Vale até hoje é considerada controversa, com suspeitas de que a empresa não teria sido avaliada corretamente para a realização da venda.

 

Após a privatização, a empresa mais do que decuplicou de valor, principalmente durante a gestão de Roger Agnelli, que foi presidente e CEO da multinacional entre 2001 e 2011 e levou a Vale a consolidar-se como a maior produtora de minério de ferro e a segunda maior mineradora do mundo. Foi durante a gestão de Agnelli que a Cia. Vale do Rio Doce alterou sua razão para Vale S.A.(2007) e adotou uma estratégia de expansão global, comprando a mineradora canadense Inco em 2006 e a Fosfertil, alcançando a posição de segunda maior produtora de níqueo do mundo e conquistando considerável marketshare também no mercado de fertilizantes. Roger Agnelli soube tirar proveito do superciclo da mineração e do aumento da demanda chinesa por commodities, especialmente minério de ferro e adotou uma política de reajustes de preço que levou a Vale a um novo patamar no mercado globl da mineração, e durante os dez anos em que comandou a empresa, fez suas ações registrarem uma valorização de 1.583%.

 

Foi durante a gestão de Agnelli que a Vale S.A. obteve a classificação de risco correspondente ao grau de investimento, pela primeira vez em que uma empresa brasileira obteve pelas agências de classificação de risco um grau suprior ao risco soberano do País. Em 2006 a Vale incorporou a canadense INCO, e tornou-se a 31ª maior empresa do mundo, com um valor de mercado de R$298 bilhões— superando a IBM e por algumas semanas(até 08/11/2007) também a Petrobras.

 

“Eu sou o Roger, da Vale”— era assim que o executivo se apresentava. Agnelli não escondia o orgulho por presidir uma das maiores empresas do País. O então ex-CEO da Bradespar tornou-se um executivo de projeção internacional, e que chegou a ser considerado pela Revista Época em 2009 como um dos 100 brasileiros mais influentes do ano, e em 2012 como o quarto CEO com melhor desempenho do mundo pela Harvard Business Rewiew, ao lado de Steve Jobs, da Apple. Roger Agnelli era formado em Economia pela FAAP- Fundação Armando Álvares Pentead, e desenvolveu a carreira profissional no Bradesco, onde trabalhou de 1981 a 2001, e também foi membro do Conselho de Administração de diversas empresas brasileiras e estrangeiras, como Petrobras, Vale, CSN, Rio Grande Energia, Brasmotor, dentre outras.

 

O executivo também tornou-se conhecido por não submeter-se a interesses partidários, e realizava parcerias e atividades no exterior, batendo de frente com o plano nacional-desenvolvimentista do então presidente Lula. Não faltaram tentativas de destituí-lo da presidência da Vale, sendo a mais famosa a do ministro Edison Lobão que pressionava publicamente a empresa a pagar cerca de R$5 bilhões de royalties pela exploração do solo do País- o que posteriormente levou o Presidente e CEO da Vale a enviar uma carta à então presidente Dilma Rousseff demostrando sua preocupação com a suspeita dos royalties em um contexto político local e desvio de verbas em Parauapebas-PA. A Vale já havia pago R$700.000.000,00 ao município, que continuava com péssimos indicadores sociais, favelas e carências nos sistemas de saneamento básico e energia. No entanto, com o apoio do BNDES e da Previ, que juntos detinham 60,5% da Vale, Roger Agnelli foi destituído do cargo, deixando a presidência em maio de 2011. Atualmente, a Vale é presidida por Murilo Ferreira, executivo indicado pelo ex-presidente Lula, e que passou a atender mais aos interesses políticos da época, o que tragicamente reduziu o crescimento da empresa, ao voltar-se mais para o mercado nacional.

 

O enorme ganho de lucratividade nos anos 2000 se deveu sobretudo ao grande aumento no preço do minério de ferro, decorrente do crescimento da indústria chinesa na época, o que permitiu à Vale, como maior detentora de reservas de minério de ferro do mundo realizar pesados investimentos em controles de gestão e aumento de competitividade para manter sua posição de maior exportadora de minério de ferro do mundo. No entanto, em relação a outras grandes mineradoras, como a Rio Tinto e BHP Billington, a Vale possui maior participação da mineração no seu Ebitda(Lucro antes dos impostos e depreciação acumulada).

 

No dia 5 de novembro de 2015 ocorreu um dos piores acidentes da história da empresa, o rompimento da barragem de Fundão. A barragem, localizada em Bento Rodrigues, a 35Km do centro de Mariana-MG, e controlada pela Samarco Mineração S.A., rompeu-se durante a tarde e(o rompimento) provocou o vazamento dos rejeitos de mineração que passaram por cima da barragem de Santarém- que no entanto, não se rompeu. A Samarco é uma empresa de participação da Vale S.A.(50%) e da BHP Billington(50%) fundada em 1977 e que ganhou destaque internacional após o ocorrido em Mariana.

 

“Nós perdemos vidas, e isso é inadmissível. Nós não sabemos as causas, mas sabemos das consequências e temos que nos desculpar com as famílias, com as pessoas que perderam os lares, com os ribeirinhos, que têm o rio Doce como sustento… Nos desculpar com a população de Minas Gerais, com o povo do Espírito Santo e com os nossos funcionários.”

  • Ricardo Vesovi, ex diretor e presidente da Samarco.

 

No dia seguinte, a mineradora(Samarco) retificou a informação de que apenas a barragem de Fundão havia se rompido, e nos dias seguintes, emitiu notas de solidariedade aos moradores da região afetada pelo desastre, e em 2016 o Conselho de Administração da empresa afastou o então presidente Ricardo Vesovi  e o diretor de operações Kleber Terra. Ambos foram indiciados pela Polícia Federal por crime ambiental, e vão de dedicar a suas defesas.

 

O desastre ambiental foi considerado o maior da história do Brasil e o maior do mundo envolvimento barragens de rejeitos de mineração. Em poucas horas, a lama chegou ao rio Doce e ao Oceano Atlântico, poluindo boa parte da bacia hidrográfica e litoral do Espírito Santo. A poluição da bacia hidrográfica do Rio Doce, que abrange 230 cidades nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, obrigou a decretação de estado de emergência e racionamentos de água, visto que boa parte do abastecimento de água local vinha do rio. Diversos ambientalistas consideraram que o efeito dos rejeitos no mar continuará por pelo menos mais 100 anos, mas não houve uma avaliação de todos os danos causados pelo desastre. Segundo a prefeitura do município de Mariana, a reparação dos danos causados à infraestrutura local deverá custar cerca de 100 milhões de reais.

 

Apesar de todas as controvérsias e desafios que já enfrentou, a Vale permanece sólida como a quinta maior empresa do Brasil(2015) e uma das maiores do mundo no seu setor(mineração), perdendo apenas para a BHP Billington. Muito mais que uma mineradora, a empresa ao longo dos anos diversificou amplamente suas atividades, e foi atuante de forma fundamental ao desenvolvimento de modernização da economia e sociedade brasileiras.

 

Imagens:

 

 

03d1112-1274[1]

Sede da Vale S.A. no Rio de Janeiro-RJ

7565.1399405154[1]

Trem da Vale na E.F. Vitória a Minas; o único trem de passageiros diário de longa distância no País

f-u26c-406[1]

Locomotiva U26C da Vale com a pintura antiga padrão CVRD

ff54559[1]

Navio Valemax descarregando minério no Porto de Rotterdam, Países Baixos

15328729[1]

Fachada da Mina Alegria, do Complexo de Mariana, no qual ocorreu o rompimento das barragens da Samarco em 2015

vli_vale_train_locomotives_2013[1]

Locomotiva AC44 da VLI- uma das diversas subsidiárias e controladas da Vale; ao lado de outra AC44 com a nova pintura padrão Vale S.A.

carajas[1]

Vista aérea da mina de Carajás, em Parauapebas-PA – terminal da E.F. Carajás

Trem de minério na E.F. Carajás, nos arredores de São Luís-MA

Trem de minério na E.F. Carajás, nos arredores de São Luís-MA

 

Trem de passageiros na E.F. Carajás

Trem de passageiros na E.F. Carajás

 

 

Fontes: Ferreoclube(http://Http://www.ferreoclube.com.br); Vale S.A.(http://Http://www.vale.com); Railpictures.net(http://Http://www.railpictures.net).

 

Posts Relacionados

Trem Sula Miranda

Postado em: 12 de outubro de 2018

Continuar Lendo

Estação Papari

Postado em: 24 de agosto de 2018

Continuar Lendo

Estação Santos – Imigrantes

Postado em: 27 de julho de 2018

Continuar Lendo

Automação em Ferreomodelismo

Postado em: 13 de julho de 2018

Continuar Lendo