Tramway da Cantareira

Por: Ferreoclube   Dia: 15 de julho de 2016

O Tramway da Cantareira, ou Estrada de Ferro Cantareira, era uma ferrovia urbana que operou na cidade de São Paulo. Sua origem remonta ao intenso crescimento da cidade de São Paulo no início do Século XX, que sofria com sérios problemas de abastecimento de água e esgotos para a população em franco crescimento. Em julho de 1877 foi criada na casa do Coronel Antônio Rodovalho(mesmo fundador da Companhia Melhoramentos) a Companhia Cantareira de Água e Esgotos, com o objetivo de desenvolver um sistema de abastecimento e saneamento na região metropolitana. A região escolhida como a mais propícia para a montagem de tal sistema foi a Serra da Cantareira, cujo nome advinha do termo cântaro, como eram chamados os enormes vasos circulares egípcios para armazenamento de água, visto que a região tinha grandes “cântaros” naturais, o que faz dela até hoje uma das principais fontes de água da capital paulista.

 

Regularizada em cartório em julho do ano seguinte, a Cia. Cantareira foi encampada pelo Governo do Estado de São Paulo, que durante os estudos de viabilidade, elaborou um projeto de ferrovia para transportar os materiais de construção para a adutora. No dia 09/11/1894 os trilhos do Tramway chegaram à estação do Pari da SPR, e tiveram início as obras com o transporte de materiais. Posteriormente surgiria a demanda por transporte de passageiros na região em que passava o tramway de serviços, quando a população local passou a exigir trans de passageiros aos domingos e feriados, visto que era comum na época viajar aos mananciais da Cantareira a passeio.

 

Como a estação inicial de embarque localizada na rua João Teodoro era distante do centro da capital, a empresa estendeu os trilhos até a região do atual Parque D. Pedro II. Em 1908 teve início a construção do Ramal Guapira, que ia até o Asilo dos Inválidos(atual Hospital Geriátrico e de Convalescentes D. Pedro II) no então bairro do Guapira(atualmente Jaçanã, nome mais conhecido do bairro e pelo qual o Tramway foi imortalizado por Adoniran Barbosa). Esse ramal dividia-se na estação do Areal, localizada em frente à antiga casa de detenção do Carandiru, que posteriormente foi demolida para dar lugar ao Parque da Juventude, em frente ao qual localiza-se a estação Carandiru do Metrô de São Paulo.

 

Além da adutora da Cantareira, o Tramway elevado à categoria de ferrovia em 1915 também transportou toneladas de materiais de construção para diversos outros monumentos da capital paulista, como o Theatro Municipal, Liceu de Artes e Ofícios, Catedral da Sé, Mercado Municipal, Batalhão Tobias de Aguiar e a Santa Casa de Misericórdia. Também transportava as mudas, sementes e essências produzidos no Horto Florestal e comercializados na capital paulista.

 

O Tramway contava no início, apenas com carros de passageiros simples e abertos, como os de bondes. Somente em 1913 surgiria uma segunda classe, com metade do preço da primeira, e entraram em circulação carros mais parecidos com os de passageiros fechados. Suas locomotivas eram todas a vapor, e movidas a lenha, combustível mais barato e abundante que o carvão utilizado em ferrovias maiores, como a SPR. Em 1915 seria elevado à categoria de Estrada de Ferro. Sua malha atingiu a máxima extensão em 1947, com cerca de 35 quilômetros de linhas. Atendia do Aeroporto de Guarulhos e o quartel militar adjacente passando pela Zona Norte e centro de São Paulo até a estação Tamanduateí, próxima da estação da SPR. Os bairros atendidos que mais se desenvolveram foram a Vila Galvão, em Guarulhos; Tucuruvi, Jaçanã, Carandiru, Pari e Tamanduateí. Suas estações eram: Areal, Carandiru, Pauliceia, Parada Inglesa, Tucuruvi, Jaçanã, Vila Galvão, Gopoúva e Guarulhos.

 

Em função das operações deficitárias(a ferrovia já vinha apresentando prejuízos operacionais desde os anos 1920) o Governo Estadual tentou vender a ferrovia à iniciativa privada, sem sucesso. Em 1942, a E.F. Sorocabana adquiriu o Tramway da Cantareira, que promoveu algumas mudanças visando a modernização do sistema. Na década de 1940, o Tramway já enfrentava a decadência, em função do caótico crescimento urbano na região metropolitana de São Paulo e a sua obsolência, que fazia o sistema incapaz de adequar-se ao novo espaço urbano e social, conforme descrito por Marcello Antunes Tálamo:

 

“O Tramway da Cantareira sofreu um processo autofágico a partir das décadas de 1920 e 1930, pois promoveu um crescimento tão grande da Zona Norte de São Paulo, que esta passou a reclamar para o seu desenvolvimento vastos espaços- agora valorizados- de pátios e linhas da ferrovia. Seus românticos trens a vapor passaram a ser consideradas máquinas barulhentas e sujas que incomodavam a urbe que se desenvolvia colada aos trilhos, os quais atrapalhavam o crescente volume de trânsito que cruzava suas linhas. O movimento diário já superava algumas dezenas de trens, que ainda assim eram insuficientes para atender ao crescente volume de passageiros, que viajavam precariamente, agarrados às portas e janelas dos vagões lotados.”(As ferrovias do Brasil nos cartões postais e álbuns de lembranças, p. 98)

 

A principal modernização da EFS foi a mudança de bitola da ferrovia, de 0,60m para 1,00m no trecho Tamanduateí-Guarulhos, colocou carros de aço e locomotivas a diesel, e planejou a sua eletrificação(para a futura colocação de alguns Toshibas 4800) que no entanto nunca ocorreu. Havia também maiores projetos de modernização da rústica ferrovia para uma rede viária similar ao Metrô de São Paulo, que já vinha sendo planejado desde 1926, mas somente se concretizaria em 1974(dez anos depois da extinção do TC). Nos anos de 1960, o Tramway da Cantareira foi paulatinamente sendo desmantelado, até que no dia 31/05/1965(ou 20/03/1964 o trecho inicial foi extinto para a abertura da Ponte Cruzeiro do Sul, e no dia 31/05/1965 o último trecho remanescente, no qual os poucos funcionários da companhia ergueram faixas de adeus diante da última composição, puxada pela locomotiva nº3131 na plataforma da estação Tucuruvi. Junto com o Tramway, as redes de bondes elétricos paulistanas conheceriam seu fim pouco tempo depois, para dar lugar nas ruas ao transporte sobre pneus, que até hoje reina absoluto na Grande São Paulo.

 

Mesmo depois de seu fim, o Tramway da Cantareira foi imortalizado na canção Trem das Onze, de Adoniran Barbosa, uma das mais conhecidas músicas sobre ferrovia presente no imaginário popular. Anos depois, com a expansão do Metrô de São Paulo, em parte do trecho em que passava o Tramway foi construída a Linha 1-Azul, nos quais a empresa construiu as estações Santana, Jardim São Paulo-Airton Senna, Parada Inglesa e Tucuruvi; e a cidade de Guarulhos futuramente atendida pela Linha 13-Jade da CPTM, com inauguração prevista para 2018, mas cujo traçado é totalmente distinto do antigo percorrido pelos trens da Cantareira.

 

Imagens:

 

Chassis da locomotiva #12 na fila da morte da EFPP

Chassis da locomotiva #12 na fila da morte da EFPP. Foto de Thor Windbergs

 

Locomotiva #12 do Tramway- antiga #4 da E.F. Votorantim, em foto de fábrica

Locomotiva #12 do Tramway- antiga #4 da E.F. Votorantim, em foto de fábrica

 

Locomotiva #10 - antiga #2 do Ramal Férreo Campineiro e posteriormente a #15 da CBCPP, na fila da morte da EFPP

Locomotiva #10 – antiga #2 do Ramal Férreo Campineiro e posteriormente a #15 da CBCPP, na fila da morte da EFPP. Foto de Thor Windbergs

 

Locomotiva #10 do Tramway da Cantareira, como locomotiva #15 da CBCPP, na E.F. Perus Pirapora. Foto de Thor Windbergs

Locomotiva #10 do Tramway da Cantareira, como locomotiva #15 da CBCPP, na E.F. Perus Pirapora. Foto de Thor Windbergs

 

Locomotivsa #7 do Tramway, posteriormente comprada pela CBCPP em 1961 e renumerada #17

Locomotiva #7 do Tramway, posteriormente comprada pela CBCPP em 1961 e renumerada #17

 

Carros de aço da EFS para o Tramway da Cantareira. Foto de Antonio Carlos Belvisto

Carros de aço da EFS para o Tramway da Cantareira. Foto de Antonio Carlos Belvisto

 

Locomotiva #9 do Tramway, que antes foi a #3 do RF Santa Rita, #1 da EF Votorantim, e depois foi a #7 da EFSPM, em São Simão-SP

Locomotiva #9 do Tramway, que antes foi a #3 do RF Santa Rita, #1 da EF Votorantim, e depois foi a #7 da EFSPM, em São Simão-SP

 

Locomotiva #9 do TC, na EFPP(foto de Jair Guidini)

Locomotiva #9 do TC, na EFPP(foto de Jair Guidini) que antes do Tramway havia rodado na Cerâmica São Carlense (linha industrial) e depois na Mogiana e finalmente virou a 2ª nº1 da EFPP

 

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Projeto de modernização do Tramway pela EFS

 

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Trem de carga do Tramway na Zona Norte de São Paulo

 

Como seria o Tramway modernizado

 

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Projeto de trecho do Tramway modernizado

 

Areal

Estação do Areal do Tramway

 

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Pátio do Tramway na região da Cantareira

 

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Trem de passageiros com carros fechados. Sem data

 

Guarulhos

Tramway na cidade de Guarulhos-SP

 

 

Projeto de modernização do Tramway; bastante semelhante às estações e pontes do Metrô de SP no trecho Santana-Tucuruvi

 

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Mapa do Tramway em sua máxima extensão

 

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Pequena locomotiva do Tramway com tênder, no qual podem ser vistas as iniciais da ferrovia. Acervo ABPF-SP

 

Demônios da Garoa aguardando o trem na estação Jaçanã. Foto de 1965

Demônios da Garoa aguardando o trem na estação Jaçanã. Foto de 1965

 

LOCO1 S12 ARQUIVO 12/11/1964 TREM ESPECIAL GERAL JT -- Depois de haver transportado milhoes de passageiros em 50 anos, uma das locomotivas a vapor da Cantareira foi transportada, pelas ruas da cidade, para as oficinas da Estrada -- FOTO ARQUIVO AE

Locomotiva do Tramway sendo transportada pelas ruas de São Paulo após a extinção do TC. 31/03/1965

 

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Mapa do Tramway na região do Tamanduateí, próximo à estação homônima da SPR

 

Projeto de uma estação em trecho elevado do Tramway

 

Excerto de jornal de 1964 sobre o fim do Tramway

Excerto de jornal de 1964 sobre o fim do Tramway

 

 ruas da cidade, para as oficinas da Estrada -- FOTO ARQUIVO AE

Locomotiva do Tramway percorrendo as ruas de São Paulo sobre um caminhão, após a desativação da ferrovia, no dia 20/03/1964. Acervo Estadão

 

 

Fontes: Ferreoclube(Http://www.ferreoclube.com.br); Museu Ferroviário Paulista(Https://www.facebook.com/museuferroviariopaulista/?fref=ts); São Paulo Antiga(Http://www.saopauloantiga.com.br); ABPF(Http://www.abpf.org.br); livro As Ferrovias do Brasil nos Cartões-Postais e Álbuns de Lembranças- João Emílio Gerodetti/Carlos Cornejo.

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